O coordenador do Bloco de Esquerda acusou neste domingo os que “estão em cima” na sociedade portuguesa de apenas pensarem em si e considerou que o primeiro-ministro protege as oligarquias económicas do país que vivem de privilégios.
Francisco Louçã falava no encerramento de uma conferência promovida pelo Bloco de Esquerda e pela Esquerda Europeia sobre “Agricultura e mundo rural - o futuro da Política Agrícola Comum (PAC)”, na Livraria Ler Devagar em Alcântara.
Falando após uma breve intervenção da eurodeputada Marisa Matias, Francisco Louçã fez várias críticas às mais recentes posições assumidas pelo primeiro-ministro, visando sobretudo as palavras que Pedro Passos Coelho dirigiu a representantes da troika, durante uma conferência realizada sábado em Lisboa.
“O primeiro-ministro, com aquele tom afável que o caracteriza, virou-se para os representantes da troika, funcionários de segunda ordem do Banco Central Europeu (BCE), da Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional (FMI), e disse-lhes: Não estamos aqui por vós, senhores da troika, estamos aqui por nós. Mas o que verificamos na economia portuguesa e no primeiro-ministro é que há uma protecção da oligarquia económica que vive do privilégio e que, por isso, acentua austeridade e a recessão”, acusou Louçã.
No caso do sector agrícola, essa protecção a oligarquias é, segundo o dirigente máximo do Bloco de Esquerda, “um dos casos mais verdadeiros”, dando como exemplos as elevadas margens de lucro conseguidas pelas grandes superfícies junto de produtores de tomate ou de leite.
“Quando o primeiro-ministro nos diz que estamos a seguir esta política por nós, ele está sempre a proteger esta oligarquia que tem o privilégio do poder do contrato”, insistiu.
Face a esta situação, Francisco Louçã anunciou que o Bloco de Esquerda irá propor no Parlamento “a obrigatoriedade da consagração do contrato entre as grandes distribuidoras e os produtores”, através da imposição de regras mínimas e da proibição da possibilidade de o custo pago ao produtor ser inferior ao custo real de produção.
“Também não poderá haver contratos sem se especificar os prazos de pagamento. Este é um desafio directo a quem manda na economia do país”, referiu Francisco Louça, citando os casos de Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos, “que actuam em Portugal com os pseudónimos Continente e Pingo Doce, respectivamente”.
A seguir, o coordenador da Comissão Política do Bloco de Esquerda referiu-se indirectamente às declarações do Presidente da República sobre o valor da sua reforma.
“Nos últimos dias sentimos que há dois ‘portugais’, um deles tão pequeno e tão poderoso, dos de cima, que se preocupa somente consigo próprio, de pessoas que só pensam em si”, disse.
Francisco Louça foi depois mais directo nas críticas à nomeação do ex-ministro das Finanças Eduardo Catroga para a presidência do Conselho de Supervisão da EDP.
“Nestes dias, já assistimos ao redactor do programa económico do partido que ganhou as eleições [o PSD] beneficiar do melhor part-time de Portugal: Cem mil euros por reunião e 700 mil euros por ano, vá ou não vá à sua reunião. Sucessivamente, outras declarações foram demonstrando que quem tem hoje o poder, quem está em cima nesta sociedade, nada se preocupa com os que estão em baixo”, lamentou o coordenador da Comissão Política do Bloco de Esquerda.


