WikiLeaks: BCP propôs informar Washington sobre finanças do Irão

12.12.2010 - 22:02 Por Nuno Ribeiro, em Madrid
O presidente do Banco Comercial Português (BCP), Carlos Santos Ferreira, propôs informar a administração norte-americana sobre as actividades financeiras do Irão como contrapartida a que os Estados Unidos não penalizassem a instituição por querer negociar com o regime de Teerão.
Esta revelação surge no El País, citando telegramas da embaixada dos EUA em Lisboa enviados ao Departamento de Estado e que constam da documentação da WikiLeaks.
A intenção de Santos Ferreira está expressa num telegrama diplomático de Fevereiro deste ano e, de acordo com o jornal espanhol, conta com o conhecimento do primeiro-ministro português, José Sócrates, de membros do Executivo e do governador do Banco de Portugal.
Em Fevereiro deste ano, o banqueiro português aborda a questão com a conselheira política e económica da embaixada norte-americana em Portugal, porque à data o novo embaixador, Allan Kataz, ainda não tinha apresentado as suas credenciais. Naquela conversa, de acordo com os telegramas, o “número um” do primeiro banco privado português manifesta a sua disposição de que as autoridades norte-americanas controlem as contas iranianas no Millennium através de uma fórmula satisfatória para ambas as partes.
Noutra comunicação, os diplomatas dos Estados Unidos referem a possibilidade de uma futura entrada da Galp Energia no Irão. Segundo os funcionários norte-americanos, Santos Ferreira explicou-lhes que os iranianos disseram ter outras opções na Europa e que o interesse da República Islâmica por Portugal pode dever-se à maior permissividade do quadro regulador do nosso país.
Segundo a documentação consultada pelo jornal El País o interesse do BCP pelo Irão começa em Abril de 2009, quando uma delegação da instituição visita durante cinco dias Teerão, a convite da embaixada iraniana em Lisboa, para explorar as possibilidades de negócios e de trocas comerciais.
Durante a visita, a delegação do BCP manteve reuniões com representantes do Banco Central do Irão, sete entidades financeiras daquele país, a Organização de Investimentos e Assistência Técnica e Económica do Irão e a embaixada portuguesa. O objectivo era fazer negócios sem violar as restrições impostas pelos Estados Unidos e as sanções da ONU.
Noutra comunicação, segundo El País, a embaixada norte-americana em Lisboa recorda a Washington que Carlos Santos Ferreira já teve anteriores contactos com os iranianos. Em finais dos anos 80, quando dirigia a Fundição de Oeiras, e aquela empresa metalúrgica vendeu apetrechos militares ao Irão.
Confrontado com a notícia, Carlos Santos Ferreira recusou prestar qualquer declaração. O Banco de Portugal afirmou não ter condições para se pronunciar, dada a hora adiantada a que teve conhecimento das informações.

