A queda da monarquia em Portugal, ocorrida há exactamente um século, não foi uma surpresa. O descontentamento com a evolução do regime que saíra da revolução liberal agudizara-se nas últimas décadas do século XIX - em particular após o Ultimato inglês de 1890 -, e a revolta falhada de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, fora um aviso de que a monarquia podia ser derrubada por um golpe militar.
Se o complexo período da I República continua a merecer leituras amplamente divergentes, parece difícil negar que o país, ou, pelo menos, o Portugal das cidades, ansiava pelo fim da monarquia. Após o regicídio de 1908, D. Manuel II cessou o apoio a João Franco, cujo governo autoritário agravara o clima de revolta que levara à morte de D. Carlos, e encarregou o almirante Ferreira do Amaral de chefiar um governo "de acalmação". Vista como uma demonstração de fraqueza pela oposição republicana, e entendida como uma cedência por uma parte significativa dos sectores mais conservadores, a estratégia falhou.
O derrube da monarquia envolveu, além de militares, dirigentes do Partido Republicano Português (PRP), a Maçonaria e a Carbonária. Esta última soubera mobilizar, sobretudo em Lisboa, o nascente proletariado fabril, mas também boa parte dessa massa de gente que vivia em condições precárias e a que o historiador Fernando Rosas chama "a plebe urbana lisboeta": um "mundo de artesãos, pequenos comerciantes, caixeiros, empregados de escritório, modestos funcionários públicos, operários oficinais e fabris, estudantes, marinheiros, cabos e sargentos".
De resto, tendo em conta tudo o que correu mal no levantamento militar propriamente dito, seria difícil explicar a vitória dos revoltosos sem esta ampla base popular de apoio. Desde logo foi necessário antecipar o golpe por se ter sabido que o governo se preparava para retirar os barcos de guerra fundeados no Tejo, que os conspiradores contavam ter do seu lado. No dia 3, Miguel Bombarda, um dos líderes civis do movimento, é assassinado por um doente. No dia 4, o chefe militar da operação, o almirante Cândido dos Reis, julgando que a revolta abortara, suicida-se. Sem a sua liderança, os oficiais comprometidos com o movimento debandam em massa. Mantém-se no posto Machado dos Santos, carbonário e oficial da Marinha, que, com nove sargentos, alguns soldados e umas centenas de civis, aguenta a posição na Rotunda do Marquês.
O movimento teve ainda a inesperada ajuda de um diplomata alemão, que se prontificou a ir negociar um armistício para permitir a evacuação de estrangeiros. Como, ao chegar à Rotunda, levava uma bandeira branca, a população achou que a monarquia se tinha rendido e saiu à rua para celebrar. A batalha estava ganha.
Formou-se um governo provisório, presidido por um velho republicano, Teófilo Braga, e cujos ministros eram todos, sem excepção, do PRP. Afonso Costa, que se iria tornar a figura dominante da primeira fase da República, tutelava a Justiça e os Cultos, António José de Almeida, o mais popular dos dirigentes republicanos, ficou com a pasta do Interior, a Brito Camacho, ser-lhe-ia em breve oferecida a pasta do Fomento.
O embate com a Igreja
O executivo durou menos de um ano, quando entrou em funções o primeiro governo constitucional, chefiado por João Chagas, um histórico do 31 de Janeiro. Tempo bastante, ainda assim, para promulgar um conjunto de leis que transformaram significativamente o país, desde as novas leis da imprensa até à célebre Lei de Separação do Estado das Igrejas, que entrou em vigor em Julho de 1911 e que vinha coroar um anterior conjunto de medidas anti-clericais de Afonso Costa: a expulsão dos jesuítas, a recuperação das leis que haviam extinguido as ordens religiosas, a probição do ensino cristão nas escolas, a anulação dos feriados religiosos ou a lei do divórcio.


