Ergueram-se os copos e fez-se um brinde à liberdade em plena rua no dia em que o Parlamento aprovou o alargamento do casamento aos homossexuais, descrito pela artista plástica Ana Vidigal como “o 25 de Abril das lésbicas e dos gays”.
Dezenas de apoiantes dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros (LGBT) - incluindo vários deputados - saíram aos abraços e batendo palmas do Parlamento, para se concentrarem na base da imponente escadaria e brindarem com champanhe a votação a que minutos antes assistiram, em silêncio e respirando de alívio, dentro das galerias, cheias como só em ocasiões especiais.
“É um dia histórico para Portugal” e “não deixa de ser uma feliz coincidência que aconteça no ano em que se comemora o centenário da República”, sublinhou a historiadora Irene Pimentel, Prémio Pessoa 2007. Para Ana Vidigal este é “o 25 de Abril das lésbicas e dos gays” e, aludindo à questão da parentalidade, realçou que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.
Mesmo a Amplos, recente associação de pais e mães pela liberdade de orientação sexual, prefere deixar para mais tarde o debate sobre a adopção, porque o dia de hoje resultou de “muita luta, muito esforço e muita coragem” e não deve ser manchado por “adjectivações discriminatórias”, disse Margarida Faria.
Nas galerias, a eurodeputada Edite Estrela assistia ao debate na fila da frente, enquanto, noutra bancada, Isilda Pegado, uma das promotoras da petição, chumbada em plenário, que defendia a realização de um referendo sobre o casamento homossexual, abanava a cabeça no momento em que o primeiro-ministro, José Sócrates, dizia respeitar as 90 mil assinaturas recolhidas, mas pedia que respeitassem também o seu compromisso eleitoral para com o alargamento do casamento a homossexuais.
Isilda Pegado acusou Sócrates de “prepotência” e propôs que o referendo seja “retirado da Constituição”, pois “está morto e enterrado”.
Elogiando o debate, Manuela Góis, da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), sublinhou, porém, que a futura lei “não é satisfatória”, por manter uma “discriminação relativamente à adopção”.
Sérgio Vitorino, das Panteras Rosa, não podia concordar mais e acabou por não assistir ao debate todo: “Nem a extrema-direita holandesa diz coisas como a direita conservadora portuguesa.”
Teresa Pires e Helena Paixão, as primeiras homossexuais que, em 2007, tentaram casar-se em Portugal, atraíram as atenções das objectivas nas galerias do Parlamento, o que agitou as forças de segurança nas galerias do Parlamento. E um agente achou mesmo necessário dirigir-se às duas para lhes pedir que não começassem “aos beijos”, nas palavras de Helena Paixão.
A agência Lusa questionou o comandante da polícia responsável pela segurança, que garantiu não haver regras quanto a beijos nas galerias: “Depende dos beijos, mas alguns têm muito simbolismo”, referiu, sem precisar quais. Já o agente que fez o pedido a Teresa Pires e Helena Paixão, questionado pela Lusa se as duas mulheres se tinham beijado, respondeu que não, mas que agiu “por prevenção”.
Esta atitude não foi isolada: noutra galeria, contou à Lusa a realizadora de cinema e activista pelos direitos LGBT Raquel Freire, outro agente recriminava encostos de cabeça de uma mulher nos ombros de outra mulher.
Já na rua, Raquel Freire e Joana Manuel repetiram - e prolongaram - o beijo que tem ilustrado a reivindicação pelo casamento homossexual. E Pol Galofre, transgénero catalão que acompanhou de perto a mudança na lei do país vizinho, lamentava: “Prefiro [a lei] a espanhola, é muito melhor, esta não permite a adopção”.


