Turquia oferece a Cavaco Silva a tribuna de Barack Obama

12.05.2009 - 08:30 Por Margarida Santos Lopes, em Ancara
Só cinco presidentes (um deles sem Estado) foram convidados a discursar na Grande Assembleia Nacional em Ancara. O último foi Barack Obama, em Abril, e hoje será a vez de Cavaco Silva, cujas palavras, dizem os anfitriões, são “aguardadas com muita expectativa”. Desta vez, não é do islão que eles querem ouvir falar, mas da Europa.
“O Presidente português merecia esta honra porque tem sido um dos maiores apoiantes dos esforços da Turquia para entrar na União Europeia”, afirmou ao PÚBLICO, em Ancara, o ministro para os Assuntos da UE e chefe dos negociadores com Bruxelas, Egemen Bagis, salientando também o “firme apoio” de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia.
Antes de Cavaco e de Obama, só Bill Clinton, Shimon Peres e Yasser Arafat haviam discursado no Parlamento dominado pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que fez da adesão à UE um “objectivo estratégico” desde a chegada ao poder em 2002.
Uma mudança política significativa que marcou uma clara ruptura do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, com o seu antigo mentor, o islamista Necmetin Erbakan, cujo Governo foi dissolvido pelos militares, “guardiões do secularismo”.
Num encontro com um grupo de jornalistas convidados pela Delegação da Comissão Europeia na Turquia, o enérgico e eloquente Bagis — muitos esperavam que tivesse sido ele, e não Ahmet Davutoglu, a suceder a Ali Babacan como chefe da diplomacia — explica o que os dirigentes turcos vão dizer a Cavaco.
“Aderir à UE é o mais importante projecto de ocidentalização deste país desde a sua fundação por Atatürk em 1923. Esperámos 44 anos para conseguir uma data para as negociações e não vamos desistir até sermos membros plenos, não parceiros especiais.”
Chipre, o obstáculo
Para a Turquia, sublinha Bagis, “a União Europeia representa um projecto de paz da história da humanidade”. A mesma ideia foi sublinhada por Ahmet Davutoglu, um dos fundadores do AKP e confidente de Erdogan. “A UE é uma história de sucesso e a Turquia quer fazer parte dela. A nossa visão da Europa é a de uma força económica sólida com peso estratégico. Queremos criar uma zona de estabilidade à nossa volta – no Cáspio, no Mediterrâneo, na Ásia, nos Balcãs, no Médio Oriente – e a melhor maneira de o conseguir é fazendo parte da UE.”
Bagis, por seu turno, repete que os turcos estão empenhados em assumir os seus compromissos, mas esperam igualmente que a UE cumpra as suas promessas. Uma delas é a de “quebrar o isolamento” da autoproclamada República Turca de Chipre do Norte (RTCN), apenas reconhecida por Ancara. “Se a UE levantar o embargo, estaremos abertos a, simultaneamente, abrir os nossos portos e aeroportos aos cipriotas gregos.”
Bagis não se conforma com “os problemas causados por uma pequena ilha do Mediterrâneo” (Chipre), que está a dificultar projectos grandiosos como o trânsito e distribuição de gás pelo Cáucaso. “O ‘pipeline’ Grécia-Turquia elevou o potencial de paz entre os dois países, tornando-os mais dependentes um do outro”, realçou o ministro.
A ilustrar a amizade entre dois antigos inimigos, o primeiro-ministro grego, Costa Caramanlis, foi um dos convidados da festa de casamento do filho de Erdogan. “Os cipriotas gregos, pelo contrário, continuam a criar obstáculos – temos oito capítulos bloqueados por causa deles.”
Apesar das dificuldades, Bagis assegura que está optimista. “Recentes sondagens indicam-nos que 40 por cento dos europeus querem que a Turquia seja membro da UE e 60 por cento acreditam que será membro; entre os turcos, 60 por cento quer que o país seja membro da União e 40 por cento estão convencidos de que será membro.”
“Eu vejo a UE como um nutricionista que elaborou uma lista em que define o que podemos e não podemos comer, e quantos minutos de exercício físico devemos fazer”, exemplifica Bagis com ironia. “Isto quer dizer que quanto mais critérios cumprirmos, mais saudáveis seremos. A Turquia tem excesso de peso, mas o facto de o nutricionista também ter quilos a mais não quer dizer que a lista esteja errada. Temos de nos concentrar neste programa de dieta.”

