Suposto plano para controlar os media fragiliza José Sócrates 
09.02.2010 - 09:31 Por Maria Lopes, Filomena Fontes, Maria José Oliveira
Há um clamor crescente na sociedade e na política a reclamar explicações do primeiro-ministro sobre o alegado plano para controlar os media. Dirigentes partidários de primeira linha, conselheiros de Estado, bloguistas e até o bispo do Porto sublinharam ontem que José Sócrates deve esclarecer publicamente o seu alegado envolvimento no plano referido pelo magistrado de Aveiro no âmbito do processo Face Oculta, divulgado pelo semanário Sol na sexta-feira.
No plano partidário, ficou ontem claro que a oposição quer analisar até que ponto há liberdade de expressão, seja através de audições avulsas, seja através de uma comissão de inquérito. No plano social, mais de um milhar de pessoas já subscreveu uma petição lançada na Internet pela liberdade de expressão, num movimento que se vai manifestar esta semana junto ao Parlamento. E dois conselheiros de Estado nomeados por Cavaco Silva, Anacoreta Correia e Marcelo Rebelo de Sousa, defendem que o eventual plano para controlar os media deve ser cabalmente esclarecido, tendo Marcelo criticado o procurador-geral da República por não ter aberto um inquérito para averiguar a fundamentação dos indícios referidos pelo juiz.
Até no interior do PS o ambiente de tensão é notório. São poucos os socialistas que ousam criticar abertamente Sócrates. Mas são também poucos aqueles que manifestam a sua solidariedade com o líder socialista. Mesmo António Vitorino, autor do programa do PS, assumiu ontem à noite na RTP que o Governo "dá-se mal com algum tipo de crítica da comunicação social". E sublinhou que Sócrates "deu uma resposta incorrecta quando disse que não sabia" do negócio da PT/TVI.
Mas há socialistas que já reivindicam uma "nova liderança" para o partido. É o caso do ex-deputado Ventura Leite, que, não sendo uma voz solitária no PS, é o único que defende publicamente que Sócrates deveria abandonar o Governo, "para bem do país" e da si- tuação económica nacional. "Temos uma liderança extremamente debilitada, que faz todos os esforços, no plano mediático, para mostrar dinamismo. Mas está muito fragilizada e não dá qualquer confiança ao país", disse ao PÚBLICO.
Mais cauteloso mas igualmente preocupado está o dirigente socialista Vítor Ramalho, conotado como soarista, que nota que o pedido de Cavaco Silva, na reunião do Conselho de Estado, não foi ouvido pelas lideranças partidárias. "O pedido de calma pedido pelo Presidente foi a posição mais sensata. Mas os líderes não foram sensíveis a esse apelo", disse, referindo-se ao PS e ao PSD.
Rangel versus Aguiar-Branco
Preocupado está também o PSD, que ontem falou a duas vozes. Em Estrasburgo, na sessão plenária do Parlamento Europeu, Paulo Rangel carregava nas tintas, denunciando "um plano do Governo para controlar" jornais, estações de televisão e de rádio. "Pela forma como estamos a andar, Portugal já não é um Estado de direito", declarou, acusando Sócrates de se refugiar em formalismos e não "dar explicações substanciais".
Mais tarde, no Porto, o líder parlamentar "laranja" demarcava-se de Rangel: "Temos todas as condições, designadamente através da Assembleia da República, para escrutinar e fiscalizar este tipo de problemas". Em conferência de imprensa, Aguiar-Branco anunciou a proposta de um conjunto de audições na comissão de ética para esclarecer os "graves indícios" de condicionamento da liberdade de expressão. O PSD vai chamar ao Parlamento, entre outros, José Eduardo Moniz, Mário Crespo, Manuela Moura Guedes, e os presidentes da Ongoing, Nuno Vasconcelos, e da Prisa e Media Capital, Manuel Polanco. No rol consta ainda Paulo Penedos, Armando Vara e Rui Pedro Soares, as três figuras ligadas ao PS escutadas no âmbito do Face Oculta. Praticamente as mesmas personalidades que o CDS também quer ouvir, embora os centristas acrescentem à lista o ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, e o presidente da PT, Zeinal Bava.
Comissão do BE recusada
A opção pelas audições na comissão de ética, justificadas por tornarem o processo mais rápido, poderá acabar por "matar" a proposta do BE de constituição de uma comissão de inquérito.
Até o PS prefere o formato sugerido pelo PSD, embora por razões diferentes. "A Assembleia da República e os tribunais são órgãos de soberania, independentes e não devem sobrepor-se. Não podemos sindicar despachos dos juízes de primeira instância ou do Supremo numa comissão de inquérito", disse Ricardo Rodrigues ao PÚBLICO.

