Sócrates vai tentar governar ao centro na economia e à esquerda nas opções de vida

01.11.2009 - 08:22 Por São José Almeida
Com o Governo constituído, a expectativa é agora a de saber até que ponto o programa de Governo, que amanhã será entregue, até às 19h, na Assembleia da República, irá conter novidades em relação ao programa eleitoral com que o PS liderado por José Sócrates se apresentou às legislativas.
Sem que o executivo abra o jogo sobre o seu conteúdo, António Costa Pinto, investigador do ICS - Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, destaca em declarações ao PÚBLICO que "há continuidade programática e discursiva" no que o primeiro-ministro tem dito desde que foi eleito, pelo que não deverão surgir grandes alterações.
Costa Pinto admite que agora "o tom tem sido mais generalista" do que foi no arranque do primeiro Governo, fruto da maioria relativa. Mas sublinha que "Sócrates vai tentar conseguir a quadratura do círculo", precisando: "Por um lado, vai tentar fazer uma política económica de centro com discurso de esquerda e na área dos valores e das concepções de vida em sociedade vai fazer uma política mais à esquerda." E acrescenta: "É provavel que no primeiro ano tenha um discurso programático mais à esquerda do que em 2005, em que o tom era mais Terceira Via e mais Blair, por causa do combate ao défice."
A continuidade programática de Sócrates é admitida por André Freire, investigador do ISCTE - Instituto Superior das Ciências do Trabalho e das Empresas, até porque, destaca "as reformas já foram feitas e o combate à crise e ao desemprego já vem de trás". Freire sublinha que "as mudanças são-no ao nível do discurso" porque se "percebeu que as pessoas querem mais negociação e mais diálogo" e porque "as condições políticas obrigam a isso".
Mais Sócrates
Mas se o tom poderá parecer mais cordato, o novo Governo não tem mais peso partidário do que o anterior. O que há é um maior peso da figura de Sócrates e do seu núcleo pessoal de poder, defende Marina Costa Lobo, investigadora do ICS.
Comparando o actual Governo com o anterior, esta investigadora defende que o Governo é "mais Sócrates e não mais PS", já que o peso da direcção do partido é o mesmo. O que aumenta, diz, é a presença de pessoas que são da confiança pessoal do primeiro-ministro.
José Almeida Ribeiro, Pedro Lourtie e Óscar Gaspar, "membros que integravam o gabinete de Sócrates, sobem a secretários de Estado", lembra Marina Costa Lobo, defendendo que resta agora esperar para ver o que acontece no próximo Congresso do PS. Um conclave que, pelos calendários normais, só acontecerá daqui a ano e meio. Mas esta politóloga questiona se não haverá antecipação e se "nesse próximo congresso Sócrates não irá puxar novos membros do Governo à direcção do partido".
PS com peso igual
Por agora, explica, o peso do PS é o mesmo do anterior Governo. Já que dos dirigentes do núcleo de direcção, ou seja, dos membros do Secretariado, sai do Governo Ana Paula Vitorino, que era secretária de Estado dos Transportes, mas entra Marcos Perestrello, que é secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar. E do mesmo órgão de direcção partidária permanecem no Governo Santos Silva, Luís Amado, Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira e Idália Moniz.
Neste domínio de análise, André Freire sublinha que há também um "importante reforço político da continuidade da direcção do partido". Como exemplo, aponta o caso de "Santos Silva, que é promovido a ministro da Defesa pelas funções políticas que desempenhou e não por possuir um pensamento técnico sobre Defesa Nacional". Este investigador vê também como uma promoção a passagem de Vieira da Silva do Trabalho para a Economia, recebendo a gestão dos fundos comunitário e do QREN.
Freire considera ainda que "os ministros políticos mantêm e adquirem um papel mais político, o que é expectável, pois o Governo precisa de mais política". No mesmo sentido vai o historiador José Medeiros Ferreira, para quem este Governo "é de acumulação de poder político do primeiro-ministro, já que "ninguém sabe o que valerão os tecnocratas" e "não há ninguém no Governo que lhe faça sombra política". Este antigo deputado e ministro do PS lembra que "o reforço de poder pessoal de José Sócrates no partido é matizado pela maioria relativa".

