Sócrates defendeu que a legitimidade do Governo "está intocável", apesar da derrota nas europeias, considerando "um abuso" que alguns queiram transformar estas eleições em legislativas: "Isso é um abuso, é não respeitar a democracia. A nossa legitimidade está intocável".
Se dúvidas houvesse, a entrevista de José Sócrates hoje à noite, na SIC, foi a prova de que está oficialmente aberta a campanha para as legislativas. O primeiro-ministro apresentou-se num tom auto-justificativo e cordato ao falar sobre os quatro anos de governação. Mas, assim que a oportunidade surgiu, não hesitou em proferir um duro ataque à líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, procurando passar uma imagem de que esta é uma política conservadora e de direita, sem preocupações sociais.
Afirmando que há entre os dois uma “diferença de mundividência”, Sócrates disparou que nunca lhe “ocorreria dizer que o casamento é para a procriação” ou que “o investimento só dá emprego a ucranianos” ou ainda demonstrar “raiva” contra a mudança da lei do divórcio. Sócrates fez ainda questão de afirmar que o que o distingue de Manuela Ferreira Leite é a “função social do Estado”, já que, sublinhou, o PSD defende “a privatização de áreas sociais”.
O primeiro-ministro recusou-se a esclarecer se num futuro Governo mantém a mesma ministra da Educação, limitando-se a dizer que o “futuro Governo será um novo Governo”. Sócrates não quis assumir que coligações fará se ganhar com maioria relativa as legislativas – “o objectivo do PS é fazer uma coligação com o país” – e não pediu a maioria absoluta, sublinhando, porém, que “os portugueses sabem que o PS nunca abusou do poder”.
Mas não escamoteou a dimensão da derrota nas europeias e, fazendo o que classificou de “leitura lúcida e realista”, afirmou que os resultados “são uma genérica avaliação” que mostra o “desgaste do Governo”. Mas justificou esse desgaste com a ideia de que foi “provocado” por terem sido feitas “muitas reformas em muito pouco tempo” o que “criou tensões” e “descontentamento” na “base social”. “Deixámos instalar a ideia de que fazíamos reformas (...) que agíamos contra classes profissionais”, apontou como erro.
A maior parte da entrevista, conduzida em tom serenidade por Ana Lourenço, mostrou um Sócrates que procurou repetir o argumentário de defesa da sua governação. Assim, enumerou as reformas da educação exaustivamente, lembrou o investimento do Alqueva e a preocupação com as contas públicas, para considerar que a crise internacional escondeu a justeza das reformas por si conduzidas.
Sobre a crise, defendeu a nacionalização do BPN, mas afirmou que a falência do BPP não põe em causa o sistema bancário. Quanto ao TGV, justificou o adiamento da assinatura de contratos para depois das eleições com o facto de um próximo Governo ter a “legitimidade refrescada” e frisou que “o Presidente da República aplaudiu aquilo que é o escrúpulo democrático do Governo”.
Notícia actualizada às 23h08


