Em 2009 o líder reuniu-se três vezes com os órgãos do PS. E fê-lo para debater eleições. Agora marcou quatro reuniões de uma assentada.
Numa manifesta tentativa de reaproximação ao PS, José Sócrates decidiu convocar um conjunto de reuniões com os órgãos internos do partido e com o grupo parlamentar. A agenda de encontros, divulgada ontem, inclui ainda uma reunião geral com os militantes da federação do Porto e a marcação de mais uma convenção Novas Fronteiras, a 20 de Março, sem local confirmado.
Amanhã, precisamente no dia em que têm início as audições na comissão parlamentar de Ética, a propósito do alegado plano governamental para manobrar os media, o líder socialista reúne-se com o secretariado nacional, às 13h, na sede nacional, em Lisboa; no dia seguinte, às 20h, terá um encontro com a bancada parlamentar; e no sábado estará em Lisboa, de manhã, com a comissão nacional, e no Porto, ao fim da tarde, com a federação portuense.
De fora destas convocatórias está a comissão política nacional. Deputados socialistas ouvidos pelo PÚBLICO lamentaram esta exclusão, apontando que as reuniões deste órgão podem acolher parlamentares que não pertencem à comissão nacional.
Ontem à tarde, foi transmitido aos membros da bancada que a ordem de trabalhos daria prioridade ao Orçamento do Estado, que terá agora de ser debatido na especialidade, e ao Programa de Estabilidade e Crescimento. Contudo, a assessora de imprensa do PS, Catarina Faria, não confirmou essa informação ao PÚBLICO, afirmando apenas que as reuniões servirão para discutir a "actual situação política". Portanto, tudo pode ser analisado, incluindo aquilo que mais tem sido exigido pelos socialistas: esclarecimentos totais sobre o envolvimento do secretário-geral nas escutas divulgadas pelo semanário Sol e que constam do processo Face Oculta, e sobre a alegada participação do Governo no plano de controlo da comunicação social, com especial incidência no negócio PT/TVI. "Perante a situação política existente é absolutamente imprescindível que se façam estas reuniões", disse ao PÚBLICO o deputado socialista Osvaldo de Castro. Sobretudo "quando há pontos de vista contraditórios dentro do partido", acrescentou, numa referência às divergências sobre o apelo à oposição para avançar com uma moção de censura ao Governo, verbalizado por Capoulas Santos, vice-presidente do PS, e por António Costa, presidente da Câmara de Lisboa. "É importante que o secretário-geral ouça o partido e que ele próprio fale para o partido", salientou.
Osvaldo de Castro partilha assim da opinião do dirigente do PS Vítor Ramalho, que, perante os "ataques"ao Executivo e aos socialistas, sublinhou a urgência de Sócrates se reunir com os órgãos do PS. Ao PÚBLICO, Ramalho afirmou ser "indispensável" debater internamente o actual momento político, esperando de Sócrates essa iniciativa "patriótica": "Um patriota tem de ter este comportamento."
Três reuniões em 2009
As queixas sobre o abandono a que o secretário-geral votou o partido ouvem-se em surdina sobretudo nos corredores da Assembleia da República. E tornaram-se consensuais, entre os socialistas, quando o nome de Sócrates foi envolvido no processo Face Oculta e quando o semanário Sol começou a publicar excertos das escutas do processo. As primeiras explicações do primeiro-ministro, defenderam os socialistas, deveriam ser prestadas ao próprio partido.
No ano passado, o líder socialista participou apenas em três reuniões dos órgãos directivos do partido e todas elas serviram exclusivamente para avaliar resultados eleitorais e, num dos casos, para aprovar as listas de candidatos para as eleições europeias. Esta aprovação aconteceu em Abril, naquele que foi o único encontro de Sócrates com a comissão nacional ao longo de 2009.


