José Sócrates omitiu hoje à noite a palavra absoluta ao falar da maioria necessária para governar o país depois das próximas eleições legislativas, ao contrário do discurso que todo o Governo faz desde há um ano. “O PS empenhar-se-á numa maioria parlamentar que dê condições para governar”, afirmou aos jornalistas à entrada para a reunião da comissão política nacional.
É uma autêntica inflexão da estratégia traçada já no primeiro semestre de 2008 e reforçada no Congresso de Espinho, em Março passado. Desde então, o núcleo duro socialista vinha avisando que só a renovação da maioria absoluta do PS dava condições de estabilidade e governabilidade. Um discurso que foi levado quase ao limite durante a campanha para as europeias, quando a crise foi erguida como o argumento maior para a exigência de uma maioria absoluta socialista.
Os resultados eleitorais “decepcionantes” podem ter sido o fim do sonho.Ao definir as prioridades do PS para os próximos meses, o primeiro-ministro apontou a necessidade de “construir uma solução política que enfrente a crise”. Já não falou de maioria absoluta, nem mesmo quando foi confrontado directamente com a pergunta sobre se o PS vai continuar a pedir a sua renovação. Ao referir uma “maioria parlamentar que dê condições para governar” aponta para todo um passado de maiorias relativas que fazem parte da história do PS.
Falando aos jornalistas à entrada da reunião para analisar os resultados eleitorais, José Sócrates deixou perceber outras nuances do discurso que haveria de fazer a seguir ao órgão político do partido. Falou da necessidade de olhar com “humildade” para os 26,5 por cento obtidos no dia 7, reconheceu o “desgaste do Governo” e as “reformas muito ásperas mas necessárias” que teve de fazer, sublinhou a importância da crise na derrota eleitoral.
A seguir, apontou as três prioridades para os próximos meses, que antecedem as eleições legislativas: defender a obra feita na educação, na energia e no plano tecnológico, explicar melhor as reformas e construir a tal “solução política que enfrente a crise”, abrindo uma nesga para coligações pós-eleitorais .
Para as oposições reservou também uma mensagem: “Não vamos permitir o abuso que estão a tentar fazer, ao criar a ideia de que estas eleições foram legislativas”. Não foram, sublinhou, não era ainda o Governo que estava a ser escolhido. “Nas eleições legislativas pergunta-se que Governo é que os portugueses querem, que primeiro-ministro querem, se do PS ou do PSD”, frisou.
Sócrates chegou à sede do partido perto das 21h45, altura em que já ali se encontravam muitos comissários, próximos e críticos. Durante a tarde, alguns notáveis ouvidos pelo PÚBLICO manifestaram a sua vontade de intervir na reunião, ao contrário do que tem sido hábito neste órgão. Sócrates, por seu lado, trazia vontade de ouvir. A noite prometia ser longa e de diálogo no Largo do Rato.



