Sócrates alimenta tensão e avisa que Cavaco Silva não está acima da crítica

23.12.2009 - 08:48 Por Nuno Simas
"Em democracia ninguém está acima da crítica." Por três vezes, José Sócrates disse a frase a pensar no Presidente da República. A quem vai hoje apresentar os tradicionais cumprimentos de Natal. No último debate quinzenal de 2009, também muito marcado pela economia e pelo próximo Orçamento do Estado, Cavaco Silva foi o ausente mais presente. A crispação entre São Bento e Belém dá tudo menos sinais de abrandar.
Primeiro foi Paulo Portas a puxar pelo assunto, ao perguntar se o primeiro-ministro estava "à procura de um pretexto para não governar, para precipitar uma crise política". Em fundo, estavam as relações com o Chefe do Estado. Sócrates só respondeu directamente à segunda, já o debate no Parlamento ia a meio, quando Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, o incitou a uma clarificação: "Quero, aqui e agora, acabar de vez a tragicomédia das eleições antecipadas num clima de intriga e crispação." Tudo por causa do mais recente episódio das críticas do PS ao Presidente por estar a intrometer-se na agenda do Governo, ao secundarizar a proposta dos casamentos gay, face aos problemas económicos e sociais do país. Louçã quis ouvir o que pensava Sócrates e ouviu. Não só não desautorizou Sérgio Sousa Pinto como aqueceu a temperatura.
"Em relação ao Presidente da República: no meu entendimento ninguém está acima da crítica. Já tenho discordado do Presidente e não levou a nenhuma dramatização." Mais ainda. "Confundir o debate político com conflito institucional ou desrespeito é um pobre entendimento da nossa democracia." O primeiro-ministro até ironizou com o líder bloquista dando-lhe um papel onde não se reverá: "O que não sabia é que estava tão zeloso para ser porta-voz do Presidente na Assembleia da República. Há algumas semanas teria sido mais útil quando o Presidente não tinha porta-voz para a imprensa."
Indirectamente, Sócrates respondeu às reservas de Cavaco em colocar o tema dos casamentos gay na agenda quando há outros problemas para resolver. Uma e outra coisa podem fazer-se em simultâneo e "não colide" com as preocupações sociais do Governo nem com a "tarefa diária" do "combate ao desemprego".
Ao contrário do que aconteceu nos últimos dias, em que Belém respondeu a notícias de fontes governamentais que falavam em "intrigas mesquinhas" por causa do cancelamento da última audiência semanal, ontem, contactada pelo PÚBLICO, a Presidência preferiu o silêncio.
Um país sem travões?
Menos azeda foi a troca de argumentos de Sócrates com Manuela Ferreira Leite, que na véspera acusara o primeiro-ministro de fazer "chantagem política" sobre o Presidente e o Parlamento. A presidente do PSD insistiu no dossier do "problema mais grave" do país, o endividamento externo, e na falta de resposta do Governo a este problema. Quis saber como "e a que preço" seriam pagos os grandes investimentos públicos, como o projecto do TGV, embora tenha antecipado a resposta numa frase: "Aquilo que está num comboio de alta velocidade é o país, que há muito tempo saltou dos carris e avança sem travões." Para Ferreira Leite, com tantas dívidas, o país está a perder a sua "independência económica".
Incoerência, clamou Sócrates, por o PSD ter proposto e aprovado o fim do Pagamento Especial por Conta (PEC), que "tira", pelas contas do Governo, cerca de 800 milhões de euros de receita de impostos. E questionou directamente Ferreira Leite. Só que Manuela recusou: "Não me compete a mim responder seja ao que for, estou aqui para lhe perguntar."

