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Relações entre Belém e S. Bento deterioram-se

Socialistas andam irritados com Cavaco e as críticas começam a ser públicas

01.07.2009 - 08:09 Por Nuno Simas

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As críticas a Cavaco Silva sobem de tom no PS, acusando o Presidente de "activismo declaratório" As críticas a Cavaco Silva sobem de tom no PS, acusando o Presidente de "activismo declaratório" (Pedro Cunha (arquivo))
António Vitorino criticou o "activismo declaratório" de Cavaco Silva. Disse, em voz alta, o que muita gente dentro do PS diz há algum tempo... em surdina.

Foi no programa de comentário Notas Soltas na RTP, segunda-feira à noite, que o ex-ministro de Guterres "estranhou" o padrão das intervenções presidenciais das últimas semanas relativamente ao Governo de José Sócrates.

Falando abertamente de um negócio, o Presidente da República defendeu "transparência" na compra de parte da Media Capital, dona da TVI, pela Portugal Telecom, no dia seguinte a Sócrates ter estado sob fogo da oposição no Parlamento. Menos de 24 horas depois, o primeiro-ministro anunciou o "veto" ao negócio da compra de parte da empresa da TVI, a televisão "alvo" de Sócrates no último congresso do PS.

"Disse e repito. (...) Surgiu esse activismo declaratório, mesmo contrariamente àquilo que é o seu hábito, que é falar sobre questões de política interna no estrangeiro, um pouco ao arrepio daquilo que, como cidadão e observador, esperava que fosse a conduta do Presidente da República", disse Vitorino. Em especial por as legislativas serem dentro de três meses.

Para o PS, há definitivamente uma mudança de estilo em Cavaco Silva. Dirigentes socialistas foram anotando a coincidência de agendas políticas entre o Palácio de Belém e a sede da São Caetano à Lapa desde que está Manuela Ferreira Leite à frente do partido, há um ano.

"Não sei quem plagia quem, agora que tendem a ser iguais, isso é cada vez mais evidente", disse ao PÚBLICO um membro da comissão política nacional do PS. Exemplos de agenda coincidentes ou de intervenções públicas são vários. A começar pela mais recente, com o caso PT/Media Capital. Outras, mais antigas, foram a contestação às grandes obras públicas como o TGV ou ainda a "coincidência" das referências à política de verdade, na mensagem de ano novo de Cavaco e no discurso de Manuela Ferreira Leite.

O TGV, contestado pelo PSD desde a liderança de Marques Mendes, obrigou José Sócrates a um dos recuos mais estrondosos, a par da transferência da construção do novo aeroporto da Ota para Alcochete.

"Capital" de queixa
Ao longo do mandato de Cavaco, os socialistas foram acumulando aquilo a que chamam "capital" de queixa - grande parte dos vetos eram projectos do grupo parlamentar socialista, a começar pela Lei da Paridade.

Embora sem questionar a legitimidade dos vetos, membros da direcção criticam o "conservadorismo" de Cavaco na Lei do Divórcio, por exemplo. E de "algum populismo" nas objecções à alteração da lei de financiamento dos partidos quanto à falta de mecanismos de fiscalização.

A verdade é que a habitual contenção verbal dos socialistas quanto a Cavaco parece ter passado à história - à excepção do núcleo mais restrito de dirigentes próximos de Sócrates.

Paulo Pedroso, dirigente e deputado do PS, encontra algo "preocupante" na coincidência de "agendas" entre o PSD de Ferreira Leite e Cavaco Silva e nas acções do Presidente. "Entre este PSD e o Presidente a tentação de pedalar a mesma bicicleta não desapareceu. Houve intervenções do Presidente recentes que não são suficientemente equidistantes", disse ao PÚBLICO Paulo Pedroso, que pertence à ala esquerda do partido. O que, num período eleitoral tão intenso, "é preocupante", concluiu.

Na direcção da bancada socialista, impera a cautela, mas o vice-presidente José Junqueiro anota as agendas interpostas de Cavaco e do PSD e até ironiza que o Presidente parece andar agora "a iluminar o caminho a Manuela". Contactados pelo PÚBLICO, vários membros da direcção do PS não quiseram pronunciar-se sobre esta questão.

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