O candidato presidencial Mário Soares pôs hoje em causa a aptidão de Cavaco Silva para o cargo de Presidente da República, considerando que o ex-primeiro-ministro "tem uma concepção de democracia muito pouco estruturada".
"Dificilmente dá [um bom Presidente da República] porque o professor Cavaco Silva tem uma concepção de democracia muito pouco estruturada, como político intermitente que é", disse o candidato apoiado pelo PS, em entrevista à TVI.
Mais à frente, numa entrevista repleta de críticas a Cavaco Silva, o antigo Presidente e fundador do PS voltou a pôr em dúvida o perfil do seu principal adversário na corrida a Belém e ex-líder do PSD que, disse, "só escreve sobre economia e finanças".
"Para um Chefe de Estado é preciso saber de história, de filosofia, ter uma formação humanista. É só a economia que conta? (...) Eu publiquei nove livros desde que deixei de ser Presidente da República. (...) Ouviu alguma palavra do professor Cavaco Silva sobre globalização ou a guerra do Iraque?", questionou.
Mário Soares concluiu de seguida sobre o currículo do ex-primeiro-ministro social-democrata: "É curto, é pouco para ser Presidente da República".
Na mesma entrevista, questionado sobre a possibilidade de, com a eleição de Cavaco Silva, existir um risco de queda do Governo do socialista José Sócrates, Mário Soares considerou: "Acho que existe. Há uma pressão imensa para que isso aconteça".
"Subversão do cargo"
Pressão que Mário Soares disse existir também quanto a uma "subversão do cargo" de Presidente da República, "não tanto" do próprio Cavaco Silva, mas "da 'entourage' dele", que "está à espera disso".
Paralelamente, o ex-Presidente procurou desmontar o argumento de que uma vitória de Cavaco Silva seria benéfica para o Governo socialista de José Sócrates, qualificando-o como "contra-propaganda".
"Isso é uma coisa que vai contra o senso comum das pessoas", sublinhou.
Prosseguindo com a sua análise ao perfil de Cavaco Silva, Soares disse depois que o ex-primeiro-ministro "não tem condições para evitar a conflitualidade social que virá aí".
E relatou depois uma troca de palavras entre ambos numa cimeira ibero-americana, na qual disse ter chamado Cavaco Silva a expor perante Fidel Castro a posição de Portugal sobre um assunto.
"Ele disse-me: ´fale o senhor, fale o senhor porque eu não tenho muito jeito", confidenciou Mário Soares.
Crítica ao "tabu de silêncio"
Ao longo da entrevista, o antigo Presidente da República insistiu sobretudo na crítica ao que qualificou como o "tabu de silêncio" de Cavaco Silva a que o ex-primeiro-ministro se remeteu para evitar recordar "um passado que não foi brilhante".
"Sabe porque é que o professor Cavaco Silva se barrica por detrás do silêncio? É porque ele acha que, aparecendo, faz recordar um passado que não foi brilhante", apontou Soares, acusando Cavaco de "tentar prolongar o silêncio" e "recuar o mais possível" em relação a debates com os outros candidatos porque julga que um político vence pelo silêncio e pelo enigma".
De resto, disse quase no final da entrevista, Cavaco Silva "foi o pai do 'monstro'" (numa alusão ao artigo em que o ex-primeiro- ministro crítica o Governo socialista de António Guterres pelo défice acumulado das contas públicas).
Mário Soares qualificou ainda como "um embuste" o processo que conduziu à apresentação de Cavaco como candidato e insistiu: "fingir que não se é político ou ser um político intermitente não é uma boa garantia para os eleitores".
A unanimidade em torno da candidatura do ex-primeiro-ministro foi também posta em causa por Mário Soares, que lembrou a opinião expressa por Pedro Santana Lopes para considerar que "muitos laranjas não vão votar" em Cavaco Silva.
Desvalorização das sondagens e críticas a Alegre
Quanto às sondagens, nas quais aparece a larga distância de Cavaco Silva e mesmo atrás de Manuel Alegre, o candidato apoiado pelo PS desvaloriza-as, afirmando que os estudos de opinião que têm sido publicados "são mais barómetros do que sondagens".


