O Estatuto dos Açores chegou ontem a Belém, a fim de ser promulgado pelo Presidente da República. Mas se Cavaco Silva não o fizer num prazo de oito dias, tal como está previsto na Constituição, não sofrerá nenhuma sanção. Trata-se de uma imperfeição constitucional. Este pormenor é particularmente relevante tendo em atenção o conflito aberto entre o governo e o chefe de Estado em relação a esta matéria.
“Se Aníbal Cavaco Silva não quiser promulgar uma lei que, na sua óptica, põe em causa ‘o normal funcionamento das instituições’, até consegue, porque não existe ‘sanção constitucional’”, avança hoje o “Diário de Notícias”.
Segundo Jorge Bacelar Gouveia, constitucionalista e militante do PSD, ouvido pelo DN, "não há consequências para o caso da não promulgação". "É uma das fraquezas da Constituição (...) uma imperfeição grave", acrescentou o constitucionalista.
Embora Jorge Bacelar Gouveia esteja convencido de que o Presidente da República "vai promulgar" o Estatuto dos Açores "sem qualquer dúvida", a verdade é que "não há mecanismo que o obrigue", escreve ainda o matutino.
Jorge Miranda, conhecido como o “pai da Constituição” portuguesa de 1976, confirmou igualmente ao “Diário de Notícias” a ausência de uma sanção. "Realmente, se o Presidente não promulgar não tem sanção", disse.
Mas, para Jorge Miranda, "seria uma crise institucional grave" se o Presidente decidisse não promulgar o Estatuto dos Açores. "Isto nunca aconteceu na vigência da Constituição de 1976", indicou Jorge Miranda, recordando ao jornal momentos de grave conflito institucional, como quando, em 1982, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes acabou por promulgar a Lei de Defesa Nacional, da qual discordava, mas que foi posteriormente confirmada pela Assembleia da República.
O polémico Estatuto Político-Administrativo dos Açores foi aprovado na passada sexta-feira no Parlamento por uma maioria de dois terços dos deputados presentes que ignoraram, assim, o veto do Presidente da República, Cavaco Silva.
Na primeira votação, a revisão do Estatuto dos Açores foi aprovada por unanimidade, seguindo-se um veto por inconstitucionalidades. Na segunda votação, corrigidas as inconstitucionalidades apontadas pelo Tribunal Constitucional, o diploma voltou a ser aprovado por unanimidade, mas foi depois alvo de veto político pelo Presidente da República.


