Rio foi incompetente na gestão do erário público

20.09.2009 - 09:29 Por Manuel Carvalho, Patrícia Carvalho
Elisa Ferreira condena as opções de Rui Rio para o Parque da Cidade, que determinaram pedidos de indemnização que podem chegar aos 169 milhões de euros. A candidata não encontrou ainda fundamentos suficientes para apoiar a demolição do Aleixo, um dos muitos bairros problemáticos da cidade.
Demolição do Aleixo, sim ou não?
Preferia não demolir o Aleixo. Nunca encontrei a boa razão para demolir o Aleixo.
Diz-se que as torres são irrecuperáveis, inabitáveis.
Andei à procura do racional dessa posição do doutor Rui Rio. Em 2001 e 2002 prometeu que o bairro não ia abaixo. Foi um compromisso sério. Chegou ao fim de 2004 e não tinha feito nada em termos de requalificação no Aleixo. E não é verdade que o doutor Rui Rio não se tenha referido ao Aleixo depois. Em propaganda eleitoral de 2005, está escrito que irá fazer a "reconversão dos bairros do Aleixo e Pinheiro Torres". Entre reconverter e arrasar pensava que havia alguma diferença. O país é pobre e temos ali 1300 pessoas a viver. Há um problema de redes de droga, sobretudo na torre 1. Mas este bairro tem menos anos que outros da cidade e a qualidade da estrutura é melhor que em qualquer outro.
O único racional que encontra é eliminar um foco de problemas sociais?
A droga. A droga foi o racional por trás do arrasar do Bairro São João de Deus. Neste momento, as redes de droga que partiam dali estão espalhadas pelo Lagarteiro, pela Pasteleira Nova, pelo Cerco, pelo próprio Aleixo. Vamos arrasar todos os bairros quando há droga? Porque é que no Aleixo todos os programas de reinserção social foram abandonados? A situação é capaz de estar pior do que há sete anos, mas por abandono. Vamos tratar a cidade assim?
Pelo que diz, em princípio não é para arrasar?
Não me posso comprometer porque não sei em que ponto está a negociação com as empresas [que constituirão o fundo imobiliário]. E pode haver razões que eu venha a descobrir que me digam que a única solução é esta. Nesse caso, terei a obrigação, como acho que o doutor Rui Rio tinha, de explicar claramente o que é que ele descobriu que não tinha descoberto. O que é que o fez mudar. Sobretudo, como é que em dois dias passa de dizer que vai assinar o acordo com as empresas para voltar atrás.
Um gesto de humildade democrática. Não interpreta assim?
Mas acha que a pessoa em dois dias muda de arrogância democrática para humildade democrática?
Pode ter reconhecido que estava errado.
Ele disse que não, que já estava a pensar nisto há muito tempo. Acho bem a decisão, gostava de perceber melhor porquê. Gestos repentinos de humildade democrática fazem-me alguma confusão.
Sim ou não à construção na frente da Circunvalação do Parque da Cidade?
Sim, se ainda for uma solução. O momento zero não é agora, foi há oito anos. Neste processo, o doutor Rui Rio não fez mal, fez péssimo. Geriu pessimamente o interesse da cidade.
Porquê?
Ele sabia que existiam direitos constituídos dos promotores. A promessa de não construir na bordadura do parque foi completamente eleitoralista e irresponsável, não a podia fazer. Eu também não estou a prometer que mantenho o Bairro do Aleixo. Não sei, vamos ver. Não é possível uma pessoa ver que existem direitos de privados e vir prometer que os vai retirar. Se existem esses direitos e você vai para uma via litigiosa, vai perder. O doutor Rui Rio andou a fazer litígio durante sete anos. E de cada vez que refez o processo judicial perdeu mais dinheiro. Ligou o taxímetro. Isto é incompetência na gestão do erário público.
Entretanto tentou negociar.
Apresentou uma proposta na câmara a 31 de Dezembro de 2008, in extremis, a dez meses das eleições e quando algumas acções judiciais já estavam em processo executivo. Estava-se em 169 milhões de pedidos de indemnização se tudo corresse mal. E depois vai negociar. Em que circunstâncias? Sem margem de manobra.
Voltaria à proposta anterior, caso os promotores a aceitassem?
Se aceitassem, claramente, mantinha-a.
Trocava a construção pelos terrenos no parque.

