O primeiro-ministro anunciou hoje a substituição, a seu pedido, dos ministros da Saúde e da Cultura e do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, numa remodelação acolhida com fortes críticas à acção de Correia de Campos e a Isabel Pires de Lima.
Correia de Campos foi substituído na pasta da Saúde pela médica Ana Jorge, 58 anos, actual directora do serviço de pediatria do Hospital Garcia de Orta, em Almada.
De acordo com uma carta a que a Lusa teve acesso, Correia de Campos terá apresentado a sua demissão para “restaurar a relação de confiança” entre cidadãos e o Serviço Nacional de Saúde (SNS).
“Circunstâncias diversas complexas, mas cumulativas, estão a minar a relação de confiança que deve existir entre os cidadãos e o Serviço Nacional de Saúde (SNS), instituição ao meu cargo, e um dos mais válidos instrumentos de equidade social criados após o 25 de Abril”, queixou-se António Correia de Campos na referida carta.
Nova ministra da Saúde é pediatra
Considerada próxima da socialista Maria de Belém Roseira e apoiante de Manuel Alegre nas últimas eleições presidenciais, Ana Jorge assumiu a presidência da Administração Regional de Saúde de Lisboa (ARS) e Vale do Tejo, entre 1997 e 2000, no governo de António Guterres.
Nessa qualidade foi acusada pelo Ministério Público, juntamente com outras 25 pessoas, de ter efectuado pagamentos indevidos ao Hospital Amadora-Sintra, o que levou o Estado a exigir-lhe uma indemnização de mais de 3,5 milhões de euros.
Mais tarde, um tribunal arbitral veio afinal dizer que estavam correctos os montantes entregues àquela unidade do Grupo Mello.
Ana Jorge trabalhou durante 15 anos no Hospital D. Estefânia, em Lisboa e durante a sua presidência da ARS destacou-se na reorganização das urgências pediátricas nos hospitais, apostando no encaminhamento das crianças para os centros de saúde da área de residência e deixando o atendimento hospitalar reservado para casos verdadeiramente urgentes.
Novo ministro da Cultura administrava a Fundação Berardo
Na Cultura, Isabel Pires de Lima vai ser substituída por José António de Melo Pinto Ribeiro, 61 anos, um advogado próximo do PS e fundador e presidente da Direcção do Fórum Justiça e Liberdades.
O gabinete de Pires de Lima confirmou hoje à Lusa que a ministra apresentou a sua demissão a José Sócrates mas não adiantou pormenores sobre a data do pedido nem os seus motivos.
Actualmente, Pinto Ribeiro, natural de Moçambique, exercia funções de administrador da PT Multimédia e da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea-Colecção Berardo.
Para além de português, o novo ministro fala alemão, inglês, francês, espanhol e italiano e é Grande Cavaleiro da Ordem da Liberdade.
Alegre espera que a remodelação seja política e não pessoal
Nas reacções à remodelação, o PS, partido do governo, foi o primeiro a comentar as mudanças, com o porta-voz dos socialistas, Vitalino Canas, a elogiar os “nomes prestigiados” escolhidos por José Sócrates para substituir os ministros da Saúde e da Cultura, que “irão reforçar a capacidade governativa” do executivo.
Ainda no PS, Manuel Alegre, deputado e candidato independente às presidenciais de 2006 sem o apoio dos socialistas, considerou que Sócrates “compreendeu as consequências negativas” da política de saúde, manifestando a sua esperança de que esta seja uma remodelação “política e não pessoal”.
PSD diz que Sócrates reconhece falha
O presidente do PSD, Luís Filipe Menezes, viu na remodelação um sinal de que o Governo “reconhece que falhou” na saúde e considerou que o primeiro-ministro já “não tem opções de escolha” para preencher o seu executivo.
A Norte, o presidente da Câmara do Porto, Rui Rio (PSD), congratulou-se com a remodelação, frisando que saíram “os dois ministros que agrediram deliberadamente o Porto” e que ele próprio dissera que “não deveriam estar no Governo, porque não tinham demonstrado sentido de Estado”.


