• Passo-a-passo para preparar um rolo de sushi
  • Passeios de mão dada por um Portugal romântico
  • Strangelfreak na terra do post-porn

Há 40 anos grupo de Palma Inácio realizou o primeiro desvio de avião comercial

Radiografia de um golpe de charme

14.07.2009 - 16:25 Por Paulo Moura

  • Votar 
  •  | 
  •  1 votos 
Palma Inácio, fotografado em Outubro de 2001 Palma Inácio, fotografado em Outubro de 2001 (Pedro Cunha)
Há 40 anos, grupo de Palma Inácio realizou o primeiro desvio de avião comercial Há 40 anos, um grupo de seis operacionais anti-fascistas portugueses realizou o primeiro desvio de um avião comercial da História. Numa operação concebida por Henrique Galvão e chefiada por Palma Inácio, o voo TAP de 11 de Novembro de 1961 do Super Constellation Mouzinho de Albuquerque de Casablanca para Lisboa foi desviado, com o objectivo de lançar panfletos anti-salazaristas em várias cidades portuguesas. Era o tempo em que os "terroristas" faziam ponto de honra em não colocar vidas inocentes em risco, e limpavam as lágrimas às donzelas. Mas há algo próprio à natureza de todas as operações políticas ilegais: em certo momento, é preciso não pensar, fechar os olhos e avançar.

Naquela noite, para que os contratempos ficassem definitivamente para trás, foi preciso acelerar e mergulhar sem medo no escuro. Dez de Novembro de 1961. 0 primeiro carro saiu de Tânger ao princípio da noite, em direcção a Tetuan. Camilo Mortágua, 27 anos, ia ao volante, a cabeça enterrada nos ombros, pensativo. Palma Inácio, o veterano do grupo, quase nos quarenta anos, ia ao lado, sempre a mexer-se, com um ar diligente e divertido em simultâneo. O ostensivo à-vontade dos dois surtia um contraste indisfarçável com o nervosismo do sector do banco de trás. Amândio Silva, 22 anos, alto e atlético, tentava manter a sua pose de ousadia melíflua enquanto se concentrava nas tarefas de logística de que estava incumbido. Helena Vidal, 20 anos, grávida, a tremelicar de fervor revolucionário, procurava uma posição em que náo a magoassem as cinco pistolas que levava presas à barriga com uma cinta. Joáo Martins, 27 anos, enorme e de bigode façanhudo, evidenciava alguma confusão, pois tinha entrado no carro sem saber nem para onde iam nem o que iam fazer.

À saída de Tânger, aconteceu o que previram: um carro cheio de agentes da Pide saiu atrás deles. Há meses que, na cidade, os pides seguiam todos os seus movimentos. Iam aos mesmos cafés, frequentavam os mesmos hotéis. Sabiam quem eles eram e qual o propósito da sua estada em Marrocos: preparar uma acção contra o regime de Salazar. Por isso, todos os dias, durante dois meses, Palma, Camilo, Amândio, Helena e Fernando, bem como o líder Henrique Galvâo e outros operacionais, iam ao porto de Tânger, fingiam que conversavam com uns e com outros, visitavam barcos. Tudo para convencer a polícia política de que preparavam uma operação marítima, como a que Galvâo tinha lançado meses atrás, com o paquete Santa Maria. Enquanto isso, outros elementos do grupo iam clandestinamente ao aeroporto de Tânger, informar-se sobre o voo de Lisboa que fazia escala em Tânger, seguia para Casablanca para, no dia seguinte, regressar directamente a Lisboa. Tratava-se geralmente de um avião francês fretado pela TAP, com piloto e técnicos franceses e tripulação de cabine portuguesa.

Nos dias anteriores ao da acção, Amândio foi, de madrugada, sozinho a Rabat, de autocarro, comprar seis bilhetes para o voo CasablancaLisboa, do dia 11 de Novembro; Camilo foi alugar dois carros, separadamente, escondendo um deles, depois foi mandar imprimir 100 mil panfletos; Helena colocou as pistolas à volta da barriga e ia passear-se para o café onde estavam os pides, para ganhar confiança. Uma noite, chegou a dançar com Amândio à frente deles, provocadora, bamboleando a cintura cheia de pólvora.

Quando o primeiro carro partiu rumo à cidade portuária de Tetuan, os pides, que foram atrás dele, acreditaram que ia realizar-se uma operação subversiva por via marítima, e alertaram as autoridades em Lisboa.

O segundo carro, que estava escondido, partiria um pouco mais tarde directamente para Casablanca. O primeiro, conduzido por Camilo, acelerou de súbito até aos 160 km/h. Quando os polícias ficaram para trás, tomou uma estrada secundária para Casablanca e rodou durante 10 quilómetros de faróis apagados.

Não havia lua, o breu era total na abafada e húmida noite africana e Camilo lançava-se na estrada sinuosa como se fechasse os olhos com força, para náo pensar em nada.

"O intelectual, posto perante a necessidade de agir, terá sempre uma tendência a querer saber mais, a informar-se, a analisar melhor. Isso bloqueará a sua capacidade de acçáo", reflectiria Camilo mais tarde. "O homem pouco habituado às abstracções terá uma tendência contrária, no sentido de agir antes de saber o essencial".

Estatísticas

  • 2309 leitores
  • 10 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1391747

Comentário + votado

Grandes Homens

Excepcional artigo, uma página fundamental da nossa história, que vem recordar homens grandes, de ...

Antonio Mendes

27.08.2009 17:03

X

Mais em Política (7 de 8 artigos)

PCP acusa Governo de querer aprovar leis à pressa