PSD mais dividido que PS sobre acordo do "bloco central"

15.05.2010 - 08:55 Por Margarida Gomes, Nuno Simas
O estado de graça de Pedro Passos Coelho no PSD é uma espécie de rolo compressor: o acordo com o Governo de Sócrates para as medidas de austeridade pode causar desconforto, depois de meses de ataques violentos ao PS, mas as críticas, para já, ficam caladas. Duas excepções: José Eduardo Martins, deputado e membro da direcção de Manuela Ferreira Leite, e o autarca algarvio Macário Correia.
Ao PÚBLICO, Eduardo Martins assumiu que tem dúvidas quanto à "partilha" do PSD das medidas de austeridade aprovadas pelo Governo esta semana. Independentemente de considerar necessárias algumas delas, e sem questionar a legitimidade da direcção de Passos Coelho, o deputado acha que os sociais-democratas poderiam ter optado pela abstenção, a exemplo do que se fez com o Orçamento do Estado e com a resolução sobre o Programa de Estabilidade e Crescimento. "Parece que estamos a partilhar as decisões, quando é o PS, e não o PSD, que está a governar", afirmou.
Também Macário Correia alertou para o perigo de um "espírito de bloco central" com o PS no poder, a "esconder a autonomia do pensamento do PSD". Para o presidente da Câmara de Faro, o país precisa de uma linha de pensamento alternativa, que "pode ter muitas faixas de convergência" mas não deve ser unânime.
A polémica também pode ser ao estilo do "perdoa-me" de Passos Coelho. O pedido de desculpas do líder social-democrata não caiu bem a dirigentes do partido: a "genuinidade" referida pela direcção pode confundir-se com populismo, dizem os mais críticos. Um estilo, assinala um deputado, impensável nas lideranças de Ferreira Leite ou de Durão Barroso.
O ex-ministro José Luís Arnaut, que apoiou Paulo Rangel na corrida à liderança, está ao lado do líder no acordo com o Governo, mas prefere não comentar o pedido de desculpas. A atitude de Passos é compreensível por o país viver hoje "uma situação de emergência" que "resulta das políticas erradas e teimosas do Governo, agudizadas com a crise internacional" exigiu uma "atitude de responsabilidade" da parte do PSD.
Versão idêntica tem Luís Campos Ferreira, que esteve ao lado de Passos Coelho. O deputado social-democrata admite que, perante a situação do país, o presidente do partido tinha um caminho muito estreito e não seria possível dizer não ao acordo ao plano de austeridade.
Inevitável, diz Paulo Pedroso
No campo socialista, o entendimento com o PSD é visto com muita benevolência. "É uma inevitabilidade", considera o ex-ministro Paulo Pedroso, explicando que a falta de alternativa "resulta do bloqueio político em que se encontra a esquerda que, apesar de ser maioritária, não consegue entender-se sobre uma questão básica: o desígnio estratégico do país em relação à participação na Europa".
Sublinhando que "não havia outro caminho a fazer", Pedroso explica que "em democracia não se tomam medidas tão drásticas sem apoio maioritário". Perante uma "esquerda que está bloqueada" e um "CDS que não passa de um pequeno partido populista", Pedroso evidencia o "sentido de Estado" que Pedro Passos Coelho vem demonstrando. "Em Portugal, com este pacote de austeridade passamos a ser governados por um bloco central sem distribuição de poder. O PSD assume o ónus de participar nas escolhas, mas não assume as responsabilidades nem as consequências da sua aplicação e da governação", afirma. Mas Pedroso teme que "todo o sentido de Estado que o PSD está a demonstrar agora redunde, a curto prazo, numa tentativa de distanciamento das consequências".
Também Capoulas Santos destaca o "sentido de Estado" do novo líder social-democrata contra a "oposição fossilizada" de Ferreira Leite, e aplaude o Governo por ter reagido de forma rápida. "O PSD colocou de lado a política rasteira e o calculismo e apresentou medidas para suster a crise. Se o não fizesse desencadearia uma crise política de consequências imprevisíveis", realça.

