"À espera de Godot". Há quem use o título do livro de Samuel Beckett para ilustrar, numa frase, o ambiente no PSD. Os sinais de impaciência e nervosismo começam a avolumar-se numa altura em que ainda faltam cinco meses até às eleições directas para se saber quem será o sucessor de Manuela Ferreira Leite.
Os líderes das distritais de Porto e Lisboa já defendem a antecipação das directas. Há um candidato assumido, Pedro Passos Coelho, mas várias "famílias", dos "cavaquistas" aos "barrosistas", querem tudo menos ver o ex-deputado e antigo líder da JSD na sala azul da sede da Rua de São Caetano à Lapa.
Neste xadrez, há uma pessoa que "não mexe nem deixa mexer as peças do jogo", na descrição de um ex-dirigente laranja: é o professor. Marcelo Rebelo de Sousa, um notável, líder do partido de 1996 a 1999 já disse que não queria ir "ao ringue" para uma luta entre candidatos de facção. E recusa ser candidato de facção, preferindo uma candidatura de unidade. Mas dirigentes sociais-democratas vão detectando, aqui e ali, sinais de que "o professor" quer ir à luta. "Marcelo é um político experiente. Quando quer dizer "não" diz "não". Desta vez, não o fez. Pelo contrário, deixou continuar o tabu", disse ao PÚBLICO um apoiante de Rebelo de Sousa.
Marcelo, talvez sim
O certo, certo é que ninguém sabe em absoluto o que vai fazer o professor de Direito e comentador político. Ele que em 1996 dizia que não era candidato nem que Cristo descesse à terra e depois liderou o partido até 1999. No sábado, o jornal i noticiou que Marcelo ia avançar, dando o primeiro sinal de disponibilidade em Janeiro. Ontem, nas Escolhas de Marcelo, na RTP1, deixou tudo na mesma: "O que se passa é não se passa nada." Um facto novo: defendeu a antecipação das directas para Fevereiro.
As últimas semanas de acalmia no noticiário sobre a crise social-democrata, também permitiram a Marcelo sacudir um pouco a pressão, na expressão de um dos seus apoiantes. Os apoios internos começaram por Paulo Rangel, protagonista da vitória do PSD nas europeias, seguindo-se apelos de José Luís Arnaut e Matos Correia. De Bruxelas, veio também o apoio do eurodeputado Mário David. Mas a onda marcelista não chegou a encher.
Confuso? Talvez, mas o PSD é um partido com uma história interna conturbada. Dois exemplos, um mais antigo e outro recente. Sá Carneiro, o fundador do então PPD, saiu e deixou a liderança por duas vezes. E, em 1974, até houve uma cisão. Durão Barroso fez as pazes com Pedro Santana Lopes na véspera das eleições de 2002. Pouco meses antes, num congresso, definiu Santana como "um misto de Zandinga e Gabriel Alves"; mas na hora de rumar a Bruxelas foi a Santana que deu o leme do Governo de coligação com o CDS-PP.
Até ao final da semana passada, os sinais internos eram de acalmia. Aparente. Afinal, com eleições previstas para a Primavera - Manuela Ferreira Leite prometeu marcar as "directas" após a votação do Orçamento do Estado de 2001 - ninguém arriscava uma campanha interna de vários meses. Com o desgaste que isso traria ao candidato. Mesmo Passos Coelho, único informalmente no terreno, tem uma agenda ínfima, com aparições fortuitas, deixando as "despesas" das polémicas internas aos seus apoiantes mais directos. Tanto tempo de transição só serve, nas palavras de um apoiante de Passos Coelho, a quem quer "escolher entre o grupo de amigos" um sucessor para a liderança.
As divisões no grupo parlamentar na última semana, porém, criaram condições internas para surgirem os primeiros sinais de impaciência. Depois de em Outubro ter passado no conselho nacional o calendário de transição de Manuela Ferreira Leite, duas das maiores distritais, Porto e Lisboa, já admitem a antecipação das directas: seriam marcadas em Janeiro, depois da votação na generalidade do orçamento. A direcção de Ferreira Leite manteve ontem, pelo segundo dia consecutivo, o silêncio sobre o assunto.
A verdade é que Manuela Ferreira Leite não sobreviveu ao ciclo eleitoral de duas vitórias (europeias e autárquicas) e uma derrota (legislativas). Teve um resultado próximo ao de Santana Lopes, em 2005. O discurso oficial é o da reflexão. Dizem-no, por exemplo, o ex-ministro Nuno Morais Sarmento.
E se Godot não chega?
O problema da metáfora de "À espera de Godot" é que de Godot acaba por nunca chegar. Se isso acontecer com Marcelo, os adversários de Passos Coelho terão de encontrar outro candidato. Paulo Rangel ou Aguiar-Branco. Outros dirigentes admitem um cenário de último recurso: Passos Coelho ir sozinho às "directas". Candidatos pode haver, mas ninguém quer dar o tiro de partida.
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