PS orgulha-se de mostrar ideias e critica quem esconde as suas

30.07.2009 - 09:16 Por Leonete Botelho, Ana Rita Faria
As ideias já eram conhecidas e José Sócrates não se demorou nelas. Na sessão de apresentação do programa eleitoral do PS, não houve novas bandeiras nem grandes surpresas. Apenas alguns sublinhados naquilo que já se sabia das propostas socialistas e muita política comparativa. "Temos ideias", sublinhou o secretário-geral. " Não precisamos de esconder nem as nossas ideias nem os nossos valores."
Era este o mote da intervenção de José Sócrates, cuidadosamente guardada para começar logo a seguir às 20h, mesmo a tempo do directo do CCB para os telejornais. Ser o primeiro partido a apresentar o programa eleitoral era uma ideia forte o suficiente para ser explorada. Sobretudo depois de o PSD ter feito saber que só apresentará o seu programa no final de Agosto e que será um documento minimalista, apenas com a definição de prioridades e algumas medidas concretas.
"O mínimo que se exige a quem se candidata à governação do país é que apresente, antes, as suas ideias e propostas", frisou Sócrates logo no início da intervenção. Porque "em democracia os cidadãos têm o direito de saber, de conhecer e de avaliar as propostas dos partidos políticos". Divulgar o programa tornou-se, assim, no cumprimento de "um dever".
"É claro que os que defendem o Estado mínimo talvez sintam necessidade de esconder o que defendem, mas nós queremos convictamente o Estado social", acrescentou Sócrates. No jogo de contrastes com o PSD, faltava ainda mais uma marca distintiva, mais uma farpa: "Nós no PS trabalhamos à vista de todos e em diálogo com a sociedade civil. Nem temos agendas escondidas nem sacrificamos a apresentação e o debate de ideias ao calculismo taticista. Não pedimos um cheque em branco aos portugueses."
Logo no início da sessão, António Vitorino, o coordenador do programa do PS, tinha marcado o mesmo rumo. "Seria inadmissível que na apresentação deste contrato de confiança houvesse quem escondesse ou omitisse as suas ideias, propostas ou valores", disse. "Num momento de crise em que vivemos, o rumo da governação não pode assentar na ambiguidade ou em mera federação de descontentamentos", insistiu.
Um programa ao centro
Mas Vitorino não disparou apenas sobre o PSD. Fez mira ao CDS-PP e disparou: "Do mesmo modo, o protesto pelo protesto, enroupado em propostas populistas ou promessas de facilidades, só agrava os problemas do país e vitimiza os sectores sociais mais desfavorecidos." E depois virou-
-se para o lado oposto: "Estamos aqui a dizer aos portugueses que existem soluções à esquerda, mas não passam nem pelo imobilismo, nem por modelos do passado, por muito pós-modernas que sejam as roupagens com que os querem vestir." Palavras usadas pelos socialistas para se referirem ao PCP e ao BE.
António Vitorino teorizou então um pouco sobre o programa de que é responsável, contrariando a esquerda “alegrista” do partido, comprovando que se trata de uma proposta de compromisso entre a esquerda e a direita. Primeira prova: "Este programa concilia o rigor nas contas públicas com um projecto de reforço da competitividade das empresas e reforço da coesão social." No mesmo pé de prioridade destaca a internacionalização das empresas, a redução do endividamento, a promoção do emprego e o combate à pobreza e às desigualdades sociais.
Com a mão esquerda, Vitorino exibiu a aposta nas qualificações das pessoas, a igualdade de oportunidades, a equidade das prestações sociais para garantir mais justiça social. Com a direita, apontou para a vertente do programa "que premeia a iniciativa, incentiva à inovação e a avaliação do mérito do desempenho das pessoas, das empresas e das instituições".
O PS, frisou o advogado, mantém o rumo traçado na simplificação, desburocratização, aposta nas tecnologias, uma sociedade mais justa e coesa. Em suma, "um programa da esquerda moderna, plural", "cosmopolita na cultura, nos costumes e nos valores". Esquerda, sim, mas "aberta aos desafios da concorrência", embora "firme na regulação dos mercados".
A palavra aos independentes
A única verdadeira surpresa da sessão, realizada numa das pequenas salas de conferências do Centro Cultural de Belém, foi a presença e intervenção de três independentes - Isabel Alçada, Manuel Caldeira Cabral e Mário Jorge - para fazer o elogio póstumo ao Governo cessante.

