PS e PSD têm tudo acertado para aprovar alterações à lei autárquica

28.04.2005 - 08:43 Por Nuno Sá Lourenço, PÚBLICO
O debate que se realiza hoje a propósito das alterações à lei eleitoral autárquica tem já um final acertado entre o PS e PSD. Os dois principais partidos decidiram que vão aprovar os respectivos projectos de lei que se propõem a mexer nos executivos autárquicos e na limitação de mandatos.
De acordo com o líder parlamentar da maioria socialista, Alberto Martins, os dois projectos em discussão serão aprovados: "Garantiremos as condições de votação favorável na generalidade ao projecto do PSD, e o PSD fará o mesmo", afirmou ontem ao PÚBLICO. Miguel Macedo, secretário-geral do PSD, mostrou-se também convicto em relação a esse desfecho, assegurando que "consideraria extraordinário" que tal não viesse a acontecer.
O debate e consequente votação resulta do agendamento potestativo do PSD, que impôs a discussão do seu projecto para hoje através de um mecanismo incluído no Regimento parlamentar.
A principal alteração prevista nos projectos incide sobre os executivos camarários. Ambos os projectos pretendem terminar com a representação proporcional nas câmaras municipais. Mas fazem-no de forma diferente.
O PSD estipula que "os vogais e vereadores dos órgãos executivos são designados pelo presidente", apesar de as "listas não vencedoras" terem "o direito de indicar vereadores para o órgão executivo". A proposta garante, no entanto, a maioria absoluta, uma vez que define um numerus clausus para a oposição. A título de exemplo, num executivo com 12 vereadores, o máximo permitido aos derrotados é de quatro lugares. A serem distribuídos "de acordo com o método de Hondt". O projecto socialista não inclui um mecanismo desse tipo. Limita-se a definir que os membros do órgão executivo são designados "sob proposta do presidente da câmara, de entre os membros eleitos da assembleia municipal".
Os dois projectos instituem ainda que o presidente da câmara passa a ser "o cidadão que encabeçar a lista mais votada na eleição". Os projectos aproximam-se, igualmente, no que diz respeito às moções de rejeição. Obrigam a uma maioria absoluta para a sua aprovação e a dissolução da assembleia municipal em caso de duas moções de rejeição aprovadas.
O PS aumenta os poderes das assembleias através da figura da moção de censura, exigindo um quinto dos eleitos para a sua apresentação, e maioria qualificada de dois terços para a sua aprovação, tendo como consequência a "destituição dos vereadores" mas não do presidente.
Em vigor quando?
Apesar do acordo, existem ainda pontos onde os dois partidos exprimem posições divergentes. O momento da aplicação destas alterações é um desses pontos. "O nosso entendimento é que não seja aplicada já. Estamos a menos de seis meses de uma eleição, não nos parece correcto mudar as regras do jogo agora. Dezembro de 2004 era o deadline", explicou Alberto Martins.
Uma posição muito diferente da dos sociais-democratas, que asseguram fazer "todo sentido aprovar para aplicar já nas próximas eleições autárquicas". Miguel Macedo entende que, perante o eleitorado, seria "ridículo a lei só ter efeitos práticos em 2009".
Entre os críticos das propostas, a principal argumentação invocada sustenta-se no puro e simples "exercício de democracia". Os partidos à esquerda do PS declaram-se frontalmente contra o fim da votação separada para a assembleia e para a câmara. "São propostas que quebram com o princípio fundamental que é a eleição para a câmara municipal, ou seja, com o princípio da participação democrática das várias forças políticas", denuncia o comunista António Filipe. Alda Macedo, do Bloco de Esquerda, segue a mesma linha: "As eleições autónomas [para a Assembleia e para a Câmara Municipal] resultam de uma boa lógica, que é a que permite a escolha autónoma. Quem olha para as eleições autárquicas dos últimos anos constata que os cidadãos, por vezes, fazem uma escolha para um órgão e outra para outro."

