Sócrates avisa o PSD de que não está disposto a "pôr o neoliberalismo" na Constituição. Santos Silva recusa co-pagamentos na saúde e na educação.
A defesa do Estado social subiu ao ringue do combate político entre o PS e do PSD. Isso mesmo tornou-se evidente ao longo das jornadas parlamentares socialistas, que terminaram ontem no Refeitório dos Frades, na Assembleia da República, com o primeiro-ministro a acusar os sociais-democratas de pretenderam "ajustar contas com a História" através das propostas de revisão constitucional.
A inflexão na universalidade e gratuitidade da saúde e da educação, já anunciada pelo PSD, "não tem a ver com a revisão da Constituição", notou José Sócrates, "mas pretende ser um ajuste de contas com a História, contra o Estado social e o Estado-providência". O distanciamento entre o PS e o PSD foi, ao longo de dois dias, aprofundado por diversos oradores convidados, que demonstraram a resistência dos socialistas face às propostas de revisão constitucional dos sociais-democratas e impuseram, como Sócrates, certas condições para uma eventual negociação: "Não contem comigo nem com o PS para pôr o neoliberalismo na nossa Constituição", avisou o primeiro-ministro, apontando que as alterações do PSD em relação aos sistemas públicos de saúde e de educação são repudiadas pelo PS. Sócrates lembrou ainda que nenhum líder socialista pugnou por "pôr mais ideologia na Constituição", ao invés da liderança do PSD, que "insiste em colocar carga ideológica" no texto.
A mensagem de que a defesa do Estado social deve estar presente na luta diária entre PS e PSD foi reiterada pelos diversos oradores das jornadas: desde Mário Soares e Ferro Rodrigues a Francisco Assis, líder parlamentar, passando pelo ex-ministro Paulo Pedroso e pelo ministro da Defesa. Augusto Santos Silva foi, aliás, quem mais frisou a necessidade de existir uma "demarcação decisiva" entre PS e PSD. Que deve começar pela oratória, apontou, passando pela insistência no "debate de ideias", na autonomia da agenda política.
Sócrates e Santos Silva não deixaram também de criticar o artigo que Pedro Passos Coelho, líder do PSD, publicou no jornal i, anteontem. O ministro foi demolidor: "[A ideia de o Estado providência se opor ao Estado regulador] é um verdadeiro monumento que vai marcar o pensamento político nas próximas décadas."
Pedroso defende alianças à esquerda
O antigo dirigente socialista Paulo Pedroso chegou às jornadas do PS, ontem de manhã, com recados para todos os partidos da esquerda. Para que não temam alianças e para que se concretizem "alternativas sólidas aos governos de maioria absoluta". No último dia das jornadas parlamentares socialistas, Pedroso quebrou a unanimidade e, no momento do debate (fechado aos media), as suas palavras terão mesmo suscitado as maiores dissensões dos dois dias.
Tudo porque Pedroso defendeu que o PS não deve recear alianças à esquerda ("não temos aliados à nossa esquerda que percebam os dramas que o país enfrenta, mas não podemos desistir de os ter. Porque para desbloquear a esquerda democrática portuguesa é preciso também que haja alternativas aos governos de maioria absoluta") e instou os deputados a reaproximarem-se do movimento sindical. "Temos de revisitar a nossa agenda sindical", pediu, crendo que seria um "embaraço" questionar quantos parlamentares do PS estiveram ou estão sindicalizados.


