PS desvaloriza críticas, oposição lembra disponibilidade para alterar normas polémicas

29.12.2008 - 22:36 Por Lusa, PÚBLICO
O Partido Socialista mostrou-se hoje satisfeito com a promulgação do Estatuto Político-Administrativo dos Açores pelo Presidente da República, Cavaco Silva, mas desvalorizou as críticas à redução dos seus poderes por uma lei ordinária e aos interesses partidários referidos pelo chefe de Estado. Os principais partidos da oposição centram as críticas na “teimosia” do PS em não alterar os dois artigos no centro da polémica, mas reconhecem que o diploma é globalmente positivo e divergem quanto à questão da lealdade entre as instituições.
O porta-voz do PS, Vitalino Canas, congratulou-se com a promulgação do Estatuto dos Açores mas desvalorizou as críticas feitas pelo Presidente da República, Cavaco Silva, ao diploma. Para o socialista, as críticas do chefe de Estado já eram conhecidas e o grande derrotado de todo o processo é o PSD. "A Assembleia da República teve a oportunidade de se pronunciar nos termos constitucionais. E pronunciou-se com uma maioria bastante alargada, por dois terços dos deputados presentes, com a abstenção do PSD e sem votos contra", apontou Vitalino Canas.
Falando no Parlamento, o porta-voz do PS reconheceu que "existe uma divergência política e constitucional" em relação ao alcance do Estatuto dos Açores, designadamente no sentido de se saber se as competências presidenciais são ou não afectadas pelo diploma agora promulgado, mas é uma questão que “poderia e deveria ter sido resolvida na sede própria", numa alusão à possibilidade que o Presidente da República teve de suscitar a fiscalização preventiva dos dois artigos que contestou.
Justificando a posição política que os socialistas adoptaram ao longo do processo e negando interesses partidários, Vitalino Canas disse que "seria muito condenável se o PS, que assumiu uma posição antes das eleições regionais dos Açores, mudasse depois das eleições a sua posição". O responsável lembrou também a maioria com que os deputados se pronunciaram, tendo apenas o PSD mudado de posição ao longo das três votações.
PSD lamenta “conflito institucional”
Já o PSD manifestou um "enorme repúdio" pela atitude do PS no processo de revisão do Estatuto falando "quebra de lealdade" institucional. Segundo o deputado, "foi aberto um conflito institucional pelo PS” e Portugal vive actualmente "uma situação (...) que era perfeitamente escusada", pelo que o seu partido vai pedir a fiscalização sucessiva do diploma ao Tribunal Constitucional.
Questionado sobre a afirmação de Cavaco Silva de que esta não é só uma "questão jurídico-constitucional" mas também "uma questão de lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania", Paulo Rangel concordou com a crítica à "lealdade institucional". "Não deve ser um órgão de soberania a dizer a forma como outro órgão de soberania exerce as suas competências. Há uma quebra de lealdade nesse sentido. É nesse sentido que julgamos que deve ser lida a frase do senhor Presidente da República", disse, defendendo que o Estatuto dos Açores reduz os poderes presidenciais.
Já o candidato “laranja” à Câmara de Lisboa, Santana Lopes, em declarações à TSF, apelou mesmo a uma dissolução da Assembleia da República, acima de tudo pelo “clima de tensão com sucessivas causas”.
CDS nega quebra de lealdade
O CDS-PP considerou que "não há qualquer quebra de lealdade entre órgãos de soberania” no que respeita ao processo de revisão do Estatuto dos Açores. O dirigente Filipe Lobo d'Ávila defendeu, ainda, que as questões de Cavaco "já poderiam ter sido suscitadas e apreciadas pelo Tribunal Constitucional e podem sempre vir a ser em sede de apreciação sucessiva". O centrista não subscreveu a opinião crítica do Presidente da República quanto à Assembleia da República e defendeu que "este processo longo tem demonstrado que os órgãos de soberania têm actuado no âmbito das suas competências". "As instituições funcionaram. E funcionarão, se for caso disso, no futuro", acrescentou o membro da Comissão Política do CDS-PP.
"Se o Tribunal Constitucional considerar que estas considerações são fundadas, a Assembleia da República terá que corrigir o diploma", salientou o dirigente do CDS-PP. Filipe Lobo d'Ávila reclamou por parte do CDS-PP uma posição de "coerência" durante o processo de revisão do Estatuto dos Açores, frisando que o partido "não mudou de posição" e votou sempre favoravelmente.

