Protesto em Lisboa: "Não foi para isto que os militares fizeram o 25 de Abril"

23.11.2006 - 08:22 Por Paula Torres de Carvalho, (PÚBLICO)
Vários oficiais generais são esperados, esta tarde, no Rossio, em Lisboa, para participar no "passeio" organizado por uma comissão de militares dos três ramos das Forças Armadas, com o objectivo de expressarem o seu descontentamento face à política do Governo e aos cortes orçamentais para o sector.
Apesar da proibição da concentração pelo Governo Civil de Lisboa, os organizadores da acção de protesto reiteraram, ontem, em conferência de imprensa, o "convite a todos os oficiais, sargentos e praças no activo, na reserva e na reforma" para comparecerem, com as respectivas famílias, no "passeio", que conta com a solidariedade das associações de militares. Muitos apresentar-se-ão fardados, asseguram, notando que "não é crime passear fardado".
O termo "passeio" foi escolhido para substituir o de "manifestação", de forma a evitar interpretações que apontem para a ilegalidade da iniciativa. E, exactamente por não a considerarem uma manifestação, os militares não pediram autorização ao Governo Civil de Lisboa. "Não há nada na lei que proíba as pessoas de passear", realça o comandante da Marinha Fernandes Torres, um dos representantes da comissão organizadora.
O entendimento da governadora civil de Lisboa, Adelaide Rocha, foi, no entanto, outro e, numa nota difundida ao final da tarde de ontem, proibia a iniciativa. O "passeio" "consubstancia uma manifestação que é "ilegal e susceptível de afectar a coesão e a disciplina das Forças Armadas", considerou, concluindo que aquela não pode realizar-se "por inequívoca violação do quadro legal vigente" e alertando que o incumprimento desta ordem constitui "desobediência qualificada". Estão a proibir uma "iniciativa que não existe", refere Fernandes Torres. "O problema agora é deles", diz.
Numa declaração lida na conferência de imprensa, realizada ao ar livre, no Rossio, Fernandes Torres salientou que a decisão do governo civil é "ilegal, injusta e sem fundamento" e "faz interpretações e processos de intenção abusivos". Acrescentou que a proibição "põe em causa os direitos mais básicos de qualquer cidadão" e que, desta forma, o Governo se "põe fora da lei" e "pretende sobrepor a razão da força à força da razão". "Não foi para isto que os militares fizeram o 25 de Abril", afirmou o comandante da Marinha.
Governo contra acção de protesto
O ministro da Defesa Nacional decidiu, entretanto, tomar posição em relação ao anunciado "passeio" e defendeu que a "alegada manifestação é contrária aos valores e à ética da instituição militar" e "pode pôr em causa a coesão, a disciplina e a dignidade das Forças Armadas".
Numa declaração à agência Lusa, Nuno Severiano Teixeira afirmou-se "em sintonia com as chefias militares e de acordo com o parecer" do Conselho de Chefes de Estado-Maior que, reunido no dia 17, considerou "o designado "passeio" ilegal e susceptível de afectar a coesão e disciplina das Forças Armadas". Simultaneamente, o ministro da Defesa considerou que as pretensões dos militares são questões "sérias e devem por isso ser tratadas em sede própria, num clima de serenidade e no respeito pelos princípios do Estado de direito".
Também o primeiro-ministro, José Sócrates, se manifestou contra a participação de militares na acção de protesto. "As manifestações ilegais não devem realizar-se em Portugal. Neste país, toda a gente tem o direito de se manifestar, desde que o faça em respeito pela lei", vincou, negando que "haja qualquer repressão" na decisão do governo civil.
Em consonância estão o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas e os chefes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, que consideram a iniciativa "ilegal". Num parecer conjunto, cujo conteúdo tem sido dado a conhecer às unidades militares, os chefes advertem que os membros das Forças Armadas "em efectividade de serviço" que participem no protesto incorrem "em infracção à disciplina".
Em declarações ao PÚBLICO, o sargento da Armada Álvaro Martins, outro dos membros da comissão organizadora da concentração de hoje, afirmou, reagindo às afirmações do ministro da Defesa, que o "passeio" decorrerá "garantidamente de uma forma elevada e com grande consciência cívica, sem nada ferir a ética militar".

