Crise dominou a campanha eleitoral. Depois desapareceu do discurso político e comunicacional

Portugal sofre um bloqueio pós-eleitoral sobre a crise

08.11.2009 - 08:17 Por São José Almeida

  • Votar 
  •  | 
  •  9 votos 
Nada de substancial mudou, o desemprego agrava-se Nada de substancial mudou, o desemprego agrava-se (PÚBLICO)
Os portugueses vivem um bloqueio psicológico colectivo pós-eleitoral em relação à crise internacional. Quem o afirma é Rui Serôdio, psicólogo e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto.

Expliquemos. A crise continua a fazer sentir-se na sociedade portuguesa. Basta olhar para a taxa de desemprego, que é de 9,1 por cento e que a OCDE estima que atinja os 11,7 por cento em 2010. Mas, desde 27 de Setembro, o assunto quase desapareceu dos jornais e das televisões e também do discurso político e comunicacional em geral.

Lembrando a técnica do duche escocês, de um momento para outro, após o calor do debate, surge o silêncio de gelo. Isto quando, há um ano, olhando para o discurso político e institucional, tudo fazia crer que não haveria grandes consequências da crise em Portugal, quando aquela já se tinha tornado incontornável, após a falência do Lehman Brothers, a 15 de Setembro de 2008.

A crise só entraria no discurso oficial do primeiro-ministro a 6 de Janeiro de 2009, quando, numa entrevista a Ricardo Costa e a José Gomes Ferreira, na SIC, José Sócrates admitiu a recessão e anunciou que ia rever o Orçamento do Estado. A partir de então, tomou medidas, como a alargamento de 12 para 18 meses do subsídio social de desemprego e o lançamento de um programa de obras em escolas. Uma estratégia que ampliou, no âmbito conjunto das decisões do G20 e da União Europeia, em Abril de 2009.

Se José Sócrates se assumiu como paladino do combate à crise, os partidos políticos da oposição tomaram o tema como bandeira eleitoral. Só que, após as urnas falarem, o assunto desapareceu do palco comunicacional. Isto quando aparentemente nada de substancial mudou. A situação internacional mantém-se. Os indicadores económicos não revelam uma recuperação fulgurante. O desemprego agrava-se. O primeiro-ministro é o mesmo.

"No contexto pós-eleitoral que estamos a viver, é normal que não se fale", explica Rui Serôdio, acrescentando que, "no pico da crise, em Abril e Maio, as pessoas sentiam mais o assunto e estavam preocupadas com os seus e consigo mesmas". Mas, "com o período eleitoral, as pessoas tiveram que tomar a decisão sobre em quem votar". Logo, quem é "afecto a um partido e tiver uma identidade com um partido, tende a calar as críticas".

A nova mesa de café

Rui Serôdio alerta para que, além da situação individual de "quem votou no PS não poder falar da crise", verifica-se ainda o alastrar deste bloqueio ao nível da formação de opinião. Isto porque, garante, "hoje em dia, as conversas de café são a televisão, a TV é o interlocutor através do qual formamos opinião, e quando chega o momento eleitoral, nessas conversas, ou seja, na TV, não há espaço para críticas, porque analistas e observadores e comentadores também votam".

Mas este silêncio será sol de pouca dura, prevê Rui Serôdio, que considera que a situação não é para tratamento psicológico. "Daqui por dois ou três meses, se o Governo estiver em funções, se a crise não melhorar, se o desemprego não diminuir, se o poder de compra não aumentar, volta-se a falar de crise, porque já não se está num momento identitário de voto."

A peculiaridade pós-eleitoral é também abordada pelo economista João Rodrigues, doutorando na Universidade de Manchester e autor do blogue Ladrões de Bicicletas, para quem, "actualmente, o debate político está na ressaca" e "os partidos estão a tactear". Salientando o peso da televisão na formação de opinião, João Rodrigues afirma: "Continuo a achar que, sobretudo nas televisões, há muita falta de pluralismo e é através do debate televisivo que a opinião se forma mais". Sublinha ainda este economista que "o debate partidário nunca é muito profundo", além de que admite que "pode haver a percepção de que a crise já passou", pois "há um cansaço do debate sobre o tema".

Estatísticas

  • 19 leitores
  • 89 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1408883

Comentário + votado

Portugal é um case study capitalista

Portugal é o melhor "case study" do que o capitalismo não deve fazer : entregar ...

Mário Alvardis

08.11.2009 10:47

X

Mais em Política (2 de 5 artigos)

Crise: É urgente recuperar o debate sobre o futuro