Portas enfrenta debate interno sobre estratégia eleitoral

17.01.2009 - 08:42 Por Margarida Gomes, Sofia Rodrigues
É com um "guião de programa de Governo" para os próximos quatro anos que o líder eleito Paulo Portas se apresenta hoje ao XXIII Congresso do partido nas Caldas da Rainha. Mas, como pano de fundo, o congresso terá uma discussão sobre a estratégia eleitoral de Portas antes e depois das legislativas. E andará às voltas com a questão do apoio a Santana Lopes para a Câmara de Lisboa.
É com um "guião de programa de Governo" para os próximos quatro anos que o líder eleito Paulo Portas se apresenta hoje ao XXIII Congresso do partido nas Caldas da Rainha. Mas, como pano de fundo, o congresso terá uma discussão sobre a estratégia eleitoral de Portas antes e depois das legislativas. E andará às voltas com a questão do apoio a Santana Lopes para a Câmara de Lisboa.
Se, para o presidente do CDS, a estratégia do partido ficou arrumada com a sua eleição há um mês, o mesmo não se pode dizer dos seus críticos, que ainda não a digeriram. Portas faz a sua defesa: "A questão estratégica já foi sufragada, eu já estou um passo à frente. Quero concentrar-me no essencial, elaborar políticas públicas consistentes que signifiquem uma viragem para melhor em relação ao que os socialistas têm feito".
Na moção com que se apresentou às directas de 13 de Dezembro - e que venceu com mais de 95 por cento dos votos -, Portas tratava o PS e o PSD por igual, rejeitando coligações partidárias para as legislativas.
Questionado sobre se esta estratégia estará a empurrar o CDS para um entendimento pós-eleitoral com o PS, em caso de maioria relativa, Portas revela apenas, em declarações ao PÚBLICO, que o partido "não fará coligações". E sublinha que quer um CDS "autónomo, independente, com espírito de conquista, que não é dependente e com personalidade".
O líder do CDS diz recusar-se a admitir que "o sistema esteja eternamente vinculado a dois partidos centrais" e afirma que a sua obrigação "é contrariar isso". Um dos exemplos que considera haver mais semelhanças do que diferenças entre os dois partidos está na questão dos impostos, um dos pontos centrais da sua Proposta de Orientação Política, Económica e Social que leva ao congresso. "O PS não baixa porque prefere investimento público; o PSD diz que só baixa se houver uma margem [orçamental] em que não acredita. E o país, pode ficar neste impasse?", questiona, acrescentando outros exemplos. "Não vejo o PS e o PSD a discutirem a sério que supervisão bancária temos, que falhas temos na regulação da concorrência e o papel crescentemente intrigante da Caixa Geral de Depósitos".
Paulo Portas quer que o congresso se concentre nas eleições legislativas, mas será seguramente inevitável silenciar a discussão sobre um eventual apoio do partido ao candidato do PSD, Santana Lopes, para a Câmara Municipal de Lisboa. O deputado Telmo Correia foi a primeira pessoa do partido a vir defender publicamente um entendimento com os sociais-democratas para Lisboa, embora o tivesse feito a título individual.
Lisboa à parte?
A proposta de orientação subscrita pela distrital de Lisboa abre a porta à possibilidade de o partido "concorrer excepcionalmente em coligação como o PSD, se a respectiva estrutura local entender (...)", e alude explicitamente ao caso de Lisboa, afirmando que as autárquicas na capital representam "um desafio especial". "A estratégia de Lisboa não deve ser uma arma de arremesso político em congresso, tal como a escolha dos candidatos também não deve ser mais um número para animar", lê-se no texto.
O que leva a ala de Portas a defender o apoio a Santana Lopes? "É uma jogada com um duplo sentido", declara Pedro Melo, do movimento Alternativa e Responsabilidade (AR), explicando que, por um lado, "permite à distrital esconder uma realidade incontornável que é a de não ter um candidato próprio para apresentar à principal câmara do país, capaz de obter um bom resultado; segundo, porque, em caso de um mau score eleitoral, o chapéu da coligação permite a António Carlos Monteiro distribuir responsabilidades com o PSD".
Há delegados que querem arredar esta questão do congresso, mas ela será incontornável, embora a direcção não tome nenhuma posição durante o evento.

