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Porque fez Cavaco um discurso vingativo?

27.01.2011 - 23:20 Por Paulo Moura

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Cavaco Silva quando se preparava para discursar Cavaco Silva quando se preparava para discursar (Nuno Ferreira Santos)
Após o anúncio da sua vitória nas eleições presidenciais, o discurso de Aníbal Cavaco Silva surpreendeu todos pela falta de magnanimidade. Em vez de falar do futuro, o Presidente reeleito referiu-se com rancor aos ex-adversários. Porquê? Foi um deslize ou uma mensagem? Que consequências pode ter um discurso infeliz?

Cavaco Silva só saiu de casa quando foram divulgados os resultados definitivos. Era o vencedor inequívoco e tranquilo de uma corrida de seis candidatos: obteve mais de 52 por cento dos votos, contra menos de 20 por cento de Manuel Alegre, o segundo candidato. Os seus adeptos (e, mais ainda, os adeptos das outras candidaturas) esperavam um discurso magnânimo, próprio de um chefe de Estado. A tradicional promessa de ser "o Presidente de todos os portugueses", depois de uma campanha por vezes agressiva, como são todas. Mas no domingo à noite Cavaco surpreendeu. Em vez de falar do futuro, remoeu as ofensas do passado.

Os outros candidatos fizeram uma campanha de "calúnias, insinuações e mentira", disse ele. "São os políticos e os seus agentes que preferem o caminho da mentira, das calúnias, dos ataques sem sentido." Mas "a honra venceu a infâmia". E logo a seguir, de uma varanda do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o monumento que simboliza a governação cavaquista, acrescentou que a sua vitória nesta eleição foi a "da verdade sobre a calúnia". E desafiou os órgãos de comunicação social a revelarem "os nomes daqueles que estão por detrás" da "campanha suja".

A História está cheia de maus discursos. Alguns foram esquecidos, outros ficaram eternamente agarrados à reputação de quem os proferiu. Em Portugal, pensemos, por exemplo, no primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo. Ninguém se lembra que foi ele que preparou as primeiras eleições para a Assembleia da República. Mas quem se esqueceu do discurso em que, respondendo ao povo que lhe chamava fascista, disse "bardamerda para o fascista"?

Bill Clinton, nos EUA, teve discursos de tomada de posse memoráveis. Mas não tanto como aquele em que explicou, a propósito do seu caso com Monica Lewinsky, que sexo oral não era sexo. A respeito dos presidentes americanos, aliás, há quem edite colectâneas dos melhores discursos, mas também dos piores, porque há a consciência de que estes fazem igualmente história.

O discurso de posse de Abraham Lincoln é tido como um dos melhores de sempre, mas logo a seguir veio Ulysses S. Grant, que fez um dos piores. Terminada a guerra civil, os americanos esperavam palavras inspiradoras sobre um futuro radioso de paz e prosperidade, mas Grant limitou-se a choramingar que era preciso pagar as dívidas da guerra civil, sem deixar de ressalvar que nunca quis ser chefe de Estado.

No caso de alguns presidentes, foi notória a diferença entre os discursos do primeiro mandato e do segundo. Thomas Jefferson foi brilhante da primeira vez e um desastre da segunda, em que passou o tempo a atacar, com voz sussurrante e rancorosa, os ex-adversários e a imprensa.

Mas quais são as consequências de um discurso infeliz? Depende. Podem não ser nenhumas, se os acontecimentos ulteriores o fizeram esquecer. Ou catastróficas, se a conjuntura já é periclitante. Quando Richard Nixon, na fase final das investigações sobre Watergate, disse na televisão "Os americanos têm o direito de saber se o seu Presidente é um escroque. Eu não sou um escroque", foi patético. Para milhões de americanos, ele próprio se tinha definido: era um escroque.

Os motivos por que se faz um mau discurso são vários. Uma precipitação, uma avaliação deficiente das expectativas, um mau conselheiro de comunicação, ou até um propósito estratégico que só mais tarde será compreendido.

Desabafo pessoal

Quanto ao discurso de vitória de Cavaco Silva, só ele sabe o que se passou. Ou nem ele. Terá tido Cavaco um desabafo pessoal, tão pouco consentâneo com a sua forma habitual de agir?

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discursos

Se ouvirem os discursos do Louçã , do Jerónimo , do Francisco , do Moura , do Coelho , do Nobre , e ...

folha58

28.01.2011 17:47