PJ admite tese de vendetta no assassinato de patrão da noite do Porto

29.08.2007 - 09:52 Por António Arnaldo Mesquita
A Polícia Judiciária decidiu investigar de uma forma articulada as mortes de Aurélio Palha, dono da discoteca Chic, e de Nuno Gaiato, segurança da discoteca El Sonero, e um tiroteio entre grupos rivais à porta do River Caffé.
Esta decisão foi adoptada ontem e está relacionada com o agravamento da situação de insegurança que tem abalado a movida do Porto, não estando excluídos novos ajustes de contas entre os grupos desavindos, na sequência do assassinato de Aurélio Palha, 42 anos. Um cenário que preocupa o Governo e levou ainda ontem o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, a anunciar a intensificação da vigilância policial nas zonas das discotecas do Porto e Matosinhos.
Dispersas por três inquéritos distintos, aquelas três ocorrências estão já a ser analisadas de uma forma convergente pela PJ, que parece admitir a tese de ajuste de contas como denominador comum. Nuno Gaiato, 26 anos, foi assassinado a tiro por três indivíduos, que o alvejaram na cabeça e no pescoço, por usar habitualmente colete à prova de bala, na madrugada de 13 de Julho.
Uma semana antes, junto ao River Caffé, registou-se uma troca de tiros entre dois grupos. A onda de violência que tem ensanguentado a noite do Porto nas últimas sete semanas, provocando quatro mortos, teve o seu último episódio junto à Chic, na antiga zona industrial. Neste espaço, onde se concentram muitas discotecas, o dono daquele estabelecimento foi alvejado por dois indivíduos, na madrugada de anteontem, que dispararam nove balas, com uma pistola de nove milímetros e uma shotgun. O seu funeral realiza-se hoje e o homicídio pode fazer aumentar ainda mais a espiral de violência que tem pautado a noite do Porto.
Grupos de segurança
Em declarações à Lusa, Vítor Guimarães, director nacional adjunto da PJ, designou a escalada de confrontos como consequência do que qualificou como um "convívio difícil" entre grupos de segurança privados. "Esta situação suscita-nos preocupação, é um fenómeno que provoca inquietação bastante por apresentar uma vertente de elevada gravidade."
O ajuste de contas já se traduziu em quatro mortes desde 7 de Julho passado e parece ser motivado por uma disputa pelo controlo de vários negócios associados à vida nocturna. Na origem dos sucessivos confrontos, estará a luta pelo controlo do negócio da segurança dos estabelecimentos de diversão e o controlo da sua exploração, mas também o tráfico de estupefacientes.
A encarniçada disputa do controlo do respectivo "território" por vários clãs organizados de "seguranças" tem-se traduzido em agressões físicas brutais e, em pelo menos quatro casos nas últimas sete semanas, em disparos mortais. Este clima de guerrilha entre bandos rivais tem sido facilitado pela informalidade da estrutura destes "grupos de segurança", apesar de a segurança privada estar regulamentada, na sequência do trágico atentado da casa de alterne de Amarante, Mea Culpa, com mais de uma dezenas de mortes.
Este tipo de marginalidade também tem beneficiado da facilidade com que aparecem e desaparecem as sociedades que exploram as discotecas. Desde Dezembro de 2005, por exemplo, que o vereador do urbanismo da Câmara Municipal do Porto, Lino Ferreira, está a tentar notificar os donos do River Caffé para encerrar o espaço. O autarca admitiu a sua impotência para concretizar a decisão, devido às contínuas mudanças do nome das firmas que exploram a discoteca, o que inviabiliza a formalização da intimação para o encerramento do espaço decidido há cerca de 20 meses.

