Paulo Rangel: "Passos tem condições para dar uma maioria absoluta ao PSD"

11.07.2010 - 10:01 Por Leonete Botelho, Nuno Simas
Eurodeputado admite que a crise leve os sociais-democratas a viabilizar próximo Orçamento, mas faz severas críticas a José Sócrates.
Paulo Rangel foi eleito há um ano deputado europeu, averbando uma vitória ao PSD que depois não alavancou os resultados nas legislativas. É vice-presidente do PPE e foi o principal adversário de Pedro Passos Coelho na corrida à liderança do PSD. Hoje elogia-o e mostra-se disponível para colaborar no que for útil. E acredita que a chegada de Passos ao Governo é uma questão de tempo.
O líder do PSD fez bem em apoiar as medidas de austeridade do Governo?
Sem dúvida. Aliás, começo por lembrar que, na campanha interna, sempre defendi que o PSD devia forçar o Governo a governar e evitar uma crise política. E também defendi que devíamos fazer uma oposição responsável. Julgo que estes dois princípios têm sido seguidos de um modo extremamente conseguido por parte do presidente Pedro Passos Coelho. Ele conseguiu fazer uma oposição responsável: em nenhum momento é confundido com o Governo e, no entanto, não deixou de apoiar aquelas medidas que, mesmo sendo insuficientes, ele reputou como indispensáveis para que o país não ficasse em falso.
Pedro Passos Coelho pediu desculpa aos portugueses por ter dado o aval a um aumento de impostos que não tinha defendido. Como viu essa atitude?
Compreendo que tivesse de ser dada uma explicação para ter mudado de opinião. Mas esse é um traço positivo e que marca uma diferença muito visível entre o primeiro-ministro e o presidente do PSD: Passos Coelho não é um egocêntrico e isso permite-lhe ter essa capacidade de pedir desculpa e ter um sentido institucional que outros líderes não têm.
Nestas medidas de austeridade, porque é que defende a redução salarial, que só atinge os trabalhadores por conta de outrem? Não é mais democrático fazer subir os impostos?
Acho que os dois devem ser combinados. A redução salarial só se faria a partir de determinados escalões, mas só ela é eficaz para reduzir efectivamente a despesa, enquanto a subida de impostos é limitada, não se pode fazer sempre, há alturas em que eles têm de descer. É possível fazer muitas coisas na redução da despesa, mas não sei se não teremos de chegar a esse extremo de reduzir salários. Não é nada que não tenha feito a Letónia, a Roménia, a Espanha, a Irlanda, a Grécia ou a Alemanha.
O PSD deve viabilizar o próximo Orçamento do Estado?
Vai depender muito do Orçamento, e este vai ser ditado muito por circunstâncias externas e exteriores à vontade do Governo. Nesse sentido, antevejo que o PSD tenha fortes condições de viabilizar um Orçamento, porque, em rigor, com as condicionantes e as restrições com que Portugal vive hoje no plano internacional, o Orçamento terá de ter uma solução quase unívoca, sem grandes alternativas.
Também não há vantagem nenhuma em abrir uma crise política...
Claro, mas se o Orçamento for delirante, não se pode aprová-lo. Não vai ser porque as circunstâncias externas não vão permitir. Mas com o engenheiro Sócrates nunca se sabe.
E no próximo ano?
A minha análise é mais funda. Vivemos em crise política há algum tempo. A questão é quando é que se vai revelar. Por isso, eu defendi para o PSD e para o país um projecto de ruptura: um corte que passe por medidas mais drásticas e difíceis. Todas as pessoas sentem a crise, que já foi retratada pelo Presidente da República como insustentável.
Mas há quem defenda - e até se tem ouvido ex-presidentes dizê-lo - que a solução para esta crise é um Bloco Central ou um Governo de salvação nacional.
A situação de crise, que se arrasta desde finais de 2008, com algum apodrecimento político, que não se resolveu com as legislativas, pelo contrário, pode exigir soluções mais exigentes que o curso normal da democracia aconselharia. Mas penso que o PSD tem todas as condições para forjar uma maioria absoluta e governar sozinho. É a solução mais salutar.

