A reunião com as distritais do PSD não estava na agenda pública do partido. Foi ao fim da tarde de segunda-feira e prolongou-se por mais de três horas na sede nacional do partido. Primeiro com o secretário-geral, Miguel Relvas, depois com o próprio presidente.
Pedro Passos foi explicar a sua estratégia num momento quente na situação política: com a ruptura com o Governo para um pré-acordo para o Orçamento do Estado de 2011 e a ameaça de crise feita por José Sócrates. Mas não disse tudo. Na reunião analisaram-se as três opções (voto contra, a favor e abstenção). Passos, porém, não abriu o jogo todo com os líderes do chamado “aparelho”. Pelo meio, teve de defender Cavaco Silva de alguns ataques de presidentes distritais contra o Presidente e ex-líder do partido (1985-1995).
De acordo com relatos da reunião feitos ao PÚBLICO, vários dirigentes distritais, entre eles o de Aveiro, afirmaram, em tom irónico, que o partido já estava habituado a atitudes de Cavaco Silva que, no passado, prejudicaram o partido em fase vésperas de eleições ou em campanhas para as legislativas. Falava-se do orçamento e da ronda de audições que hoje começam por, na leitura de alguns dos presentes, poderem prejudicar o partido que Cavaco liderou. Embora não tivessem sido referidos, dirigentes sociais-democratas lembram-se as declarações de Cavaco Silva sobre os benefícios das maiorias absolutas nas campanhas de 1995 e 2005.
Na reunião, o líder do partido acabou por defender o ex-primeiro-ministro desta hostilidade laranja, afirmando que o que está a fazer, ouvindo os partidos, é o que qualquer Presidente – ainda mais em vésperas de presidenciais - faria nesta fase de crise política iminente.
O próprio Cavaco recordou, há semanas, o seu esforço para negociar o orçamento quando era primeiro-ministro e não tinha maioria absoluta, argumentou. Na prática, Passos quis chamar à atenção que cabe ao Governo apresentar a proposta de orçamento. E não ao partido da oposição.
Pedro Passos Coelho não fez muitas revelações sobre o encontro a dois, em São Bento, na semana passada, que resultaram num fracasso sobre o Orçamento para 2011. Na versão de Passos, José Sócrates ter-lhe-á pedido que abdicasse das condições que colocara na Festa do Pontal, em Agosto, para viabilizar o Orçamento, incluindo não aumentar impostos. Eram essas as tais pré-condições que Sócrates negou existirem e levou Passos a dizer que jamais se voltará a reunir com Passos sem testemunhas.
O relato de Passos foi sucinto, sem grandes pormenores, mas o suficiente para dizer que os termos da negociação era tudo menos aceitável pelo PSD. E não antecipou cenários. Nem à volta da mesa se fizeram grandes contas sobre quem era a favor ou contra a abstenção no orçamento.
Hoje, terça-feira, a maratona de reuniões, na véspera do encontro em Belém com Cavaco Silva, encontra-se com um grupo de economistas, logo pela manhã. À tarde, é a vez da reunião da Comissão Política Nacional, na sede do partido.


