Os imponderáveis políticos que Sócrates não domina e que lhe podem tirar o poder

13.07.2008 - 12:23 Por São José Almeida
A um ano de três actos eleitorais que redefinirão quem vai ocupar toda a estrutura do poder político em Portugal, o primeiro-ministro, José Sócrates, encontra-se perante um país diverso daquele que esperava ter ao fim de três anos da sua governação, e que não previu no guião que elaborou para o seu consulado à frente do Governo. O primeiro-ministro tinha tudo desenhado para criar condições de reedição do seu poder absoluto em 2009, mas a realidade é diversa; Sócrates não consegue controlar os imponderáveis que poderão resultar mesmo na sua derrota.
Da forma como o país político evoluir no próximo ano dependerá o futuro de Sócrates, não só no que se refere à sua reeleição como primeiro-ministo, mas também na sua própria candidatura à chefia do Governo. Essa evolução depende de factores internos ao próprio PS e à governação e de factores externos, todos eles incontroláveis pelo primeiro-ministro.
É certo que muito do que de imponderável existe na situação política portuguesa tem pouco que ver com a própria política e até com o país. Ao contrário do que o primeiro-ministro esperava e todos os líderes mundiais previam, a crise económica é uma realidade incontornável. O disparar de preços dos alimentos, os valores exorbitantes que as taxas de juro atingem (com aumentos em média de 100 euros num ano no valor das prestações de pagamento de empréstimos à habitação na ordem dos 100 mil euros), a espiral de preços do petróleo (com empresas a comprarem já barris a mais de 200 dólares para assegurarem o stock do próximo ano) são três factores externos que o Governo não domina, mas que entram como uma onda gigante que destrói a praia que Sócrates estava a preparar para si e para o PS no final da legislatura.
Mas também há factores internos, quer nacionais, quer partidários, que poderão complicar os planos de uma segunda maioria absoluta de Sócrates. Factores que vão desde a nova liderança no PSD, que veio revitalizar a oposição de direita, até ao crescimento da oposição à esquerda, que, por mais que o primeiro-ministro desvalorize, não consegue travar, passando pelos problemas internos do PS, dos quais Manuel Alegre pode até ser o menor.
Isto para não falar sobre a sua relação com o Presidente da República. Quer Sócrates, quer Cavaco Silva têm insistido em fazer passar a imagem de relação cordial, mas esta tem as tensões próprias à natureza do poder de ambos os cargos e à personalidade e convicções dos seus protagonistas.
Será assim um ano de apreensão para José Sócrates e para os restantes actores políticos e cujo desfecho é impossível de prever.
Os obstáculos
Fénix renascida das cinzas
A 31 de Maio, Manuela Ferreira Leite foi eleita presidente do PSD. A nova líder, que era esperada há meses e há meses preparava a sua candidatura, viu os seus timings antecipados pela demissão de Luís Filipe Menezes. Mas esta antecipação não estragou apenas os planos do grupo de personalidades que a apoiavam e que se preparavam para avançar só a seguir ao Verão.
Se Manuela Ferreira Leite e o seu grupo tiveram de arregaçar as mangas e pôr-se ao trabalho político mais cedo, a verdade é que a sua eleição acabou com a inexistência de “oposição a sério” à direita. E ainda que haja quem considere que Manuela Ferreira Leite não conseguirá depor José Sócrates do poder e quem destaque que as críticas generalistas da nova direcção do PSD podem até jogar a favor do actual primeiro-ministro, há também quem frise que o poder do PS já foi abalado e que os socialistas já tiveram de arrepiar caminho.
Por um lado, salientam a imagem de credibilidade de Manuela Ferreira Leite e o facto de a nova líder do PSD só poder capitalizar com a sua atitude de austeridade e de rigor, bem como com o seu anti-mediatismo face ao hiper-mediatismo de José Sócrates.
Por outro lado, destacam as consequências que Manuela Ferreira Leite já teve sobre a governação. A baixa do IMI foi proposta inicialmente por Manuela Ferreira Leite e as suas críticas às mudanças nos certificados de aforro levaram o Governo a mexer no que tinha feito, salientam.

