No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”. Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.
Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça.
Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.
Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros.
Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.
É assim que vai estar [em relação ao microfone]?
A olhar para si, geralmente respondo a olhar para as pessoas. Geralmente. Podia ter ficado com o trauma de não olhar para as pessoas que é para poder mentir à vontade. Mas eu nos interrogatórios fazia ao contrário, para ser convicto.
Olhava.
Olhava.
Isso não é grande prenúncio para esta entrevista.
[ri-se]. Vamos lá. Temos que fazer o trabalho.
Como foi a viagem para o Tarrafal?
Foi a última viagem do Kwanza, um velho navio que andou no transporte de colonos nos anos 30. Viemos na enfermaria transformada em prisão. E deixavam-nos sair meia hora, uma hora por dia para tomar ar no convés. Foi assim durante os dias que demorou até São Vicente.
Quantos dias?
Dez, oito, não me recordo. Depois escrevi isto nas cartas para a minha mulher. Habituei-me a escrever no Tarrafal todos os dias, então as cartas eram muito grandes. Como a regalia era escrever de 15 em 15 dias, além de fazer uma letra muito pequenina e certa, como ainda hoje conservo, escrevia dos dois lados, e tentava pôr o máximo de informação, para poder recordar-me quando saísse. Adoptei um sistema de escrever uma coisa anódina que desperta na memória o facto por trás daquilo. Se for procurar uma carta de 1965 em que falo da beleza da luz a entrar pelas grades do refeitório, sei que foi o dia em que o Ilídio Machado foi mandado para a cela disciplinar porque o director perguntou-lhe: “Então, a sopa está boa, senhor Ilídio?” E ele disse: “Está quente, está quente.”
O que levava consigo para o Tarrafal?
A roupa e os livros que estávamos autorizados a ter em Luanda [nas prisões de onde vinham]. Eu estava a estudar italiano e quimbundo, trazia uma gramática de quimbundo, a do [José Luís] Quintão, e trazia um livro de texto e uma gramática de italiano.
Passou a viagem a escrever?
Não, penso que não escrevi. O hábito que ainda tenho é primeiro viver, e depois, quando me atribuo tempo de tranquilidade, tomo notas. Esta entrevista, eu logo à noite vou tomar notas.
Esse processo é que me permitiu guardar, porque me obrigava a gravar na cabeça. Claro que a grande maioria das coisas perdeu-se. E pode ser que eu já estivesse a ver como queria guardar. Então às vezes conto coisas que não são rigorosamente verdade, só no sentido de que há um facto verdadeiro por trás.


