O resultado obtido ontem pelo PS foi o terceiro pior da sua história. Só em 1985 com Almeida Santos e em 1987 com Victor Constâncio o PS obteve, em qualquer eleição depois do 25 de Abril, um pior resultado que o de ontem. Pior: nestas europeias o PS de José Sócrates teve um pior resultado, em percentagem, do que o PSD de Santana Lopes nas eleições de 2005. E perdeu cinco dos seus anteriores 12 deputados.
A três meses de umas eleições legislativas onde ambiciona repetir a maioria absoluta, José Sócrates encontra-se em apuros: perdeu, porque escolheu um mau candidato - algo que se percebeu demasiado depressa, se bem que tivesse constituído uma surpresa -, mas perdeu sobretudo porque os eleitores quiseram castigar as políticas do seu Governo. Em Outubro, sem o peso de Vital aos ombros, e numas eleições onde os votos não podem ser apenas de protesto, que condições tem para recuperar?
Algumas, mas a possibilidade de repetir uma maioria absoluta é cada vez mais uma miragem. Mesmo que o partido se reconcilie com parte do eleitorado que ontem votou em branco (uns impressionantes 4,6 por cento), e recupere o que lhe fugiu para a CDU e para o Bloco, sobretudo para este último.
E o que aconteceu à sua direita? Em boa parte a vitória do PSD, sem ser impressionante nos números, e a boa prestação do CDS indicam que esta começa a recuperar o apoio dos eleitores que lhe fugiram em 2004 e 2005 (mas que existem, como a eleição à primeira volta de Cavaco Silva provou).
Se em 2004, nas anteriores europeias, a coligação PSD-CDS obtivera o pior resultado de sempre para o bloco de direita e centro-direita, se outra péssima prestação se repetiu em 2005, a recuperação a que ontem assistimos ainda deixa longe a soma dos dois partidos de um resultado que lhes permitisse chegar ao Governo com maioria. Ou seja, a vitória do PSD ontem foi importante para relançar as eleições legislativas de Outubro, sobretudo porque, para a opinião pública, ficou a imagem forte de um novo rosto num mundo político muito rarefeito, o de Paulo Rangel e, ao mesmo tempo, Manuela Ferreira Leite ganhou em toda a linha, pois impôs-se ao partido como alguém que toma decisões difíceis sem ceder às pressões das inúmeras facções internas.
Se até agora não faltava quem afirmasse que o pior problema do PSD era o PSD e a sua liderança sem carisma, os resultados de ontem mostraram que o pior adversário do PSD vai ser, muito provavelmente, o Bloco de Esquerda.
O BE surgiu ontem, de forma clara, como o outro grande vencedor das eleições. Porque teve mais votos, elegeu mais deputados e, sobretudo, porque ultrapassou uma importante barreira psicológica: ficou à frente de um PCP que teve um dos seus melhores resultados dos últimos anos. A soma das percentagens obtidas pelos dois partidos coloca a extrema-esquerda portuguesa num patamar que não conhecia desde 1979, isto é, acima dos 20 por cento.
Nessa área é impossível imaginar um cenário de governabilidade com o PCP. Em contrapartida o Bloco, apesar de fugir de assumir responsabilidades governativas como o diabo da cruz, confronta-se com o seu eleitorado mais urbano que oscila entre os homens de Louçã e o mal-amado PS e que gostaria de ter alguma influência na governação. O Bloco já tirou uma maioria a Guterres e, daqui por uns meses, pode voltar a tirar outra a Sócrates.
Da mesma forma o PSD sabe que muitos dos seus eleitores, mesmo detestando o estilo de Sócrates, podem ser levados a votar PS em nome da governabilidade. Um Bloco tão forte à esquerda do PS pode levar alguns dos eleitores de hoje do PSD a votarem PS, se pensarem que isso é mais seguro.
Daqui até Outubro muitos factores que escapam ao controlo quer do Governo, quer das oposições, não deixarão de influenciar o estado de espírito dos eleitores e de condicionar as propostas que apresentarão aos eleitores. A crise não vai desaparecer de um momento para o outro, há muitas bombas-relógio a correr no nosso inapresentável sistema judicial, e todos terão de reavaliar o tipo de discurso que têm feito.


