O que Manuel Alegre ganha com o apoio do PS... e o que se complica

30.05.2010 - 20:10 Por Luciano Alvarez
Sócrates adiou até hoje o apoio do PS à candidatura de Alegre. Ouviu todas as estruturas do partido, como não fez em outras ocasiões, deu voz aos críticos e “obrigou” muitos militantes que apoiam o poeta a ficarem em silêncio. Alegre ganhou hoje, acima de tudo, a libertação dos militantes para estarem a seu lado.
Mas Alegre não ganhou só esta libertação e os votos de muitos socialistas. Com o Governo em crise e com a crise financeira que continuará viva quando o candidato começar a campanha, depois do Verão, não interessa a Alegre ver o partido colado a si. Nesta matéria, discrição será a palavra de ordem. Mas não deixará de usufruir, pelo menos em parte, da eficiente máquina de campanha socialista. As infra-estruturas e as pessoas, a Juventude Socialista e o essencial apoio financeiro.
Claro que alguns socialistas vão tentar minar-lhe a caminhada, mas neste momento Alegre tem o chamado “PS profundo” consigo. Muitas estruturas locais estão com ele e algumas nem esperaram pela decisão do PS para lhe darem apoio. Serão esses, aliados aos apoiantes do Bloco de Esquerda e à estrutura que Alegre manteve da última eleição presidencial, que lhe vão fazer a campanha. É com esta gente que conta para dar corpo à aritmética que é feita dentro da sua candidatura e que prevê, pelo menos, a disputa de uma segunda volta eleitoral.
Criticar ou ficar calado?
A partir de agora o mundo também mudou para Alegre. Terá de medir mais as suas palavras, gerir as opiniões face às medidas do Governo e com as quais será confrontado. Alegre é um homem frontal, que não manda dizer por terceiros, mesmo quando estão em causa medidas com as quais não concorda. Provou-o ao longo do tempo por actos e palavras. Mas terá agora de ser mais comedido. Criticar, por vezes de forma violenta, como fez em algumas intervenções públicas desde que se lançou nesta segunda corrida a Belém, irritará e afastará algum eleitorado socialista e dará argumentos para os seus inimigos dentro do PS virem a público “denunciar” a sua candidatura.
Ficar calado, ser complacente e pouco claro, minará a base de apoio que poderá não lhe perdoar uma eventual “aliança” com o Governo. E esta base não está só no BE e naqueles que votaram nele nas presidenciais. Está também dentro do PS, entre aqueles que, como ele, são contra muitas acções do executivo.
E há também Cavaco Silva, certamente de novo candidato a Presidente da República. Se até agora a crise financeira poderia favorecer politicamente Cavaco – o economista que aponta caminhos e favorece consensos para combater o “monstro” –, a dimensão da crise e as medidas duras que é preciso tomar e que o Presidente aprovará poderão ter mudado este cenário. A crise pode agora chamuscar a candidatura de Cavaco. Alegre terá de estar na barricada contrária, mas se criticar Cavaco por este apoiar medidas do Governo estará também a criticar Sócrates.
Como se vai posicionar Alegre neste complicado cenário? Esta é a grande incógnita e muito provavelmente o seu maior problema nesta eleição. Para já o seu discurso contra algumas medidas do Governo parece ter amolecido. Basta ler algumas das suas intervenções públicas desde que apresentou a sua candidatura no Algarve, em que fez sempre uma defesa forte dos direitos sociais, dos desempregados e dos desfavorecidos. Num artigo publicado no Diário de Notícias, no passado dia 16, escreveu: “Ninguém gosta de medidas que vão penalizar os portugueses, como o imposto sobre o trabalho e sobre o consumo, e a redução de algumas prestações sociais, como o subsídio de desemprego. O problema está em saber se havia alternativa. Não sou pessoa para se esconder e fugir às suas responsabilidades. É minha obrigação política reconhecer que esta é uma hora de dar a cara e enfrentar sem subterfúgios a dura realidade.” O mundo mudou, lembram-se?

