"O Porto visto como o espaço que vai da Circunvalação até ao rio Douro é um Porto mesquinho"

06.10.2009 - 08:09
O que é que um homem do CDS-PP pode perguntar à candidata do PS à Câmara do Porto? Muita coisa. Foi "uma boa conversa", ironizou Lobo Xavier no final do encontro, em que, aparentemente, Elisa Ferreira parece ter somado pontos junto do centrista. Pelo menos no que diz respeito ao Parque da Cidade. Primeira de quatro entrevistas com candidatos às autarquias de Lisboa e Porto
António Lobo Xavier foi o primeiro a chegar ao encontro marcado para o café Majestic e já tinha lido uma parte da revistaThe Economist e tomado o café quando a entrevistada chegou, como de costume, de táxi. Não muito atrasada.
Durante mais de uma hora o jurista, do CDS-PP, perguntou o que quis à candidata do PS à Câmara do Porto.
António Lobo Xavier - Queria começar por desvendar um pouco mais da pessoa, alguns aspectos que não conheço e que considero importantes. Onde nasceu?
Elisa Ferreira - No Hospital de Santa Maria, no Porto, e vivi na Rua de Costa Cabral grande parte da minha infância. Licenciei-me na Faculdade de Economia [da Universidade do Porto], onde fui monitora e assistente.
Viveu sempre na cidade, tirando os seus episódios governativos e a sua presença no Parlamento Europeu?
Não. Quando era assistente na faculdade e comecei, ao mesmo tempo, a trabalhar na Comissão de Coordenação [da Região Norte], com o professor Valente de Oliveira, surgiu a oportunidade de fazer um mestrado e doutoramento. Vivi quatro anos em Inglaterra nessa altura e fui a primeira mulher doutorada da Faculdade de Economia.
Mas isso é o seu curriculum fantástico. Eu quero saber mais coisas da pessoa. Era uma "marrona" ou sempre teve esse ar sorridente e descontraído?
Nem marrona nem o género genial. Sempre trabalhei muito.
No 25 de Abril de 1974, era mais à esquerda do que é agora?
É um bocado estranho, mas eu acho que nunca saí do sítio. Não abona muito a meu favor.
Eu tenho exactamente a mesma opinião sobre mim próprio.
Não era muito activa politicamente no liceu, comecei a ser nos últimos anos. Sempre prezei muito a liberdade e mexeu muito comigo, quando comecei a aperceber-me do facto de haver condicionantes à liberdade de expressão e de pensamento. E é evidente que os últimos anos de liceu e primeiros da faculdade foram bastante mais activos politicamente.
Uma coisa difícil de perceber é por que é que, depois de tantos anos na política, ainda é independente.
Acho que na política ou entramos na altura certa ou então não faz sentido entrar a título de cristão-novo. Se tivesse sido devidamente abordada nos meus tempos de faculdade, talvez tivesse aderido ao PS.
Mas não entrou. E, agora, não gosta de partidos?
Sinto-me muito melhor fora do partido. Acho que não lhe causo problemas, temos uma aliança de há muitos anos em que as coisas funcionam bem.
Queria tocar num assunto porventura mais crispante para si, mas que entra pelos olhos dentro, porque o seu adversário principal o escolheu como tema de campanha. Como vê a crítica generalizada à ideia de que se candidatou à Câmara do Porto mas construiu primeiro uma rede para que, se as coisas corressem mal, não ficar totalmente desprotegida?
Este ano é muito especial. Sobrepuseram-se uma série de calendários eleitorais, o que obrigou cada partido a definir a sua própria estratégia. A CDU e o PS consideraram que não havia problema nenhum, e havia até algumas vantagens, em candidatar a câmaras pessoas que também eram candidatas ao Parlamento Europeu. Outros pensaram de outra maneira. Cada partido escolheu a sua estratégia.
E do seu ponto de vista pessoal?
Não tem problema nenhum. Preocupava-me, sim, se não estivesse na equipa do Parlamento Europeu, que o meu opositor fosse dizer "esta senhora, correu-lhe mal e agora veio para o Porto". Vir para o Porto nessas circunstâncias, como uma derrotada, perturbava-me. Agora, querer abandonar o Parlamento Europeu para vir para o Porto parece-me uma grande vantagem comparativa e talvez por isso é que fui tão atacada.

