A campainha a chamar os deputados para o debate sobre o estado da Nação tocava estridente há 15 minutos quando José Sócrates fez um inesperado desvio no caminho. Em vez de ir directamente para a sala onde estava prestes a começar a sessão, o primeiro-ministro parou e cumprimentou, com sorrisos e apertos de mão, alguns dos utilizadores do Twitter que hoje visitaram a Assembleia da República. “O nosso primeiro devia começar a usar o Twitter”, ouviu-se entre o grupo.
As cerca de 20 pessoas seguiram dali para uma das galerias do Parlamento, onde quem quisesse podia usar a rede de Internet da Assembleia da República para ir comentando online o debate.
A iniciativa foi organizada através do próprio Twitter pelo deputado do PS Jorge Seguro, ao qual se juntaram os deputados Pedro Mota Soares (CDS), Hermínio Loureiro (PSD) e Nuno Antão (PS).
Os twitters (é o nome dado aos utilizadores deste serviço) começaram por fazer uma visita guiada ao Parlamento. E, como estavam longe de parecer turistas ou alunos de uma qualquer escola em visita de estudo, houve quem, nos corredores da Assembleia, tivesse perguntado em voz baixa: “De onde vem este grupo?”. Respondemos: “São utilizadores do Twitter, convidados por um deputado.” Mas a resposta não surtiu mais efeito do que um vago acenar de cabeça.
Obviamente, nem todos dentro do edifício estão familiarizados com este serviço online, que ganhou recentemente popularidade em Portugal – e especialmente entre os políticos portugueses. Sócrates até pode não estar no Twitter, mas vários deputados passam já parte do tempo das sessões parlamentares a discutir (uns com os outros e com quem queira entrar na conversa) o desenrolar dos trabalhos – tudo em mensagens de 140 caracteres ou menos.
Durante a visita, alguns twittavam (o site também já deu origem a um novo verbo) a partir do telemóvel. Outros tiravam fotografias (houve até quem pusesse a máquina fotográfica nas mãos de um deputado, para que este fizesse o favor de tirar a foto da praxe) e colocavam-nas online.
Do grupo de twitters, dois destacavam-se pela idade: João Barreiros e Rita Teixeira, 16 anos, acabaram há pouco o 11º ano. Ele usa o Twitter há uns meses, ela apenas há duas semanas. Mas resolveram aproveitar o convite do deputado socialista para visitar o Parlamento.
Rui Caldeira não é muito mais velho: tem 18 anos, acabou agora o secundário e está no Twitter há um ano, onde segue “os dois ou três deputados” que lhe interessam. À falta de portátil, decidiu actualizar a sua conta no Twitter através do telemóvel (os telemóveis são proibidos nas galerias, por isso Jorge Seguro pediu discrição a quem quisesse usar estes aparelhos na condição de “terminais de acesso à Internet”).
Ainda antes do debate arrancar, o deputado socialista despediu-se: “A política daqui a dois ou três anos vai ser muito diferente. Temos formas mais eficazes de comunicação. O trabalho do deputado é muito melhor graças ao Twitter.”
Texto corrigido às 21h51


