O especialista em grandes urgências que quer "credibilizar a política"

25.12.2010 - 08:55 Por Alexandra Campos
Há alguns anos, Fernando Nobre aterrou em Lisboa após uma dura e prolongada missão da Assistência Médica Internacional (AMI) no Líbano, depois de "dois a três meses a dormir num subterrâneo, com bombas a cair ao lado". Mas, à chegada, nem parou para descansar: "Virou-se para a equipa e desafiou: vamos ao Porto." Luís Nobre Lucas, seu sobrinho, ressuscita este episódio para atestar "a força extraordinária" e a "grande resistência" do médico que fez da AMI uma espécie de multinacional de ajuda humanitária, e que agora se lançou na improvável aventura de se candidatar à Presidência da República. Para espanto de muitos e contra os conselhos da família.
Porque toda a família o tentou dissuadir. Toda. A mulher, Luísa Nemésio, avisou-o de que ia "passar de bestial a besta" num ápice. Mas Nobre não cedeu. "Teimoso", "tenaz", "inquieto", como o descrevem vários amigos, impelido por "um chamamento ético e idealístico", como o próprio faz questão de afirmar, avançou contra ventos e marés e foi o segundo a anunciar a candidatura, em Fevereiro.
Se fosse vivo, o pai também teria torcido o nariz. "Dizia que a política é uma porcaria", conta a sua irmã Leonor, vice-presidente da AMI, que recorda Fernando ainda rapazinho, em Angola, onde nasceu, e já a insistir que queria ser médico "para ajudar as pessoas".
"Candidatar-se foi uma das decisões mais heróicas que tomou até hoje: entrou numa guerra completamente diferente", avalia o jornalista José Manuel Barata-Feyo, amigo pessoal de Nobre e principal responsável pela sua vinda para Portugal, há 25 anos.
"Fez-me a maior confusão ver os comentários na Net. Noventa por cento eram a cascar nele, uma coisa miserável. Os portugueses não estão preparados para pessoas diferentes", lamenta o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, que também é seu amigo. "Independentemente desta aventura política, é um português notável", acentua. Se fosse eleito, até seria "um desperdício". Porquê? "Ele ia morrer de tédio..."
Não é fácil perceber o que leva um homem com o percurso de Fernando Nobre, que aos 59 anos passou por mais de 160 países e ajudou vítimas de guerras, de terramotos e de tsunamis, a investir na corrida para Belém. Podia ter simplesmente permanecido à frente da AMI, continuar a fazer 50 mil quilómetros por ano e a trabalhar 16 horas por dia, a apanhar aviões para cenários de conflitos e catástrofes e a alimentar aquele ideal romântico do homem que consagrou a vida à ajuda humanitária.
Afinal, o que é que o faz correr? "Um dever de cidadania", a necessidade de "credibilizar o mundo da política", elenca, pela centésima vez, na sua voz arrastada. "Poderá parecer ridículo a algumas pessoas, mas eu tinha que me levantar em nome dos excluídos, e de um país cujo percurso me estava a preocupar", sintetiza o médico, que se propõe, com arrojo, "Recomeçar Portugal".
Nem de direita nem de esquerda
"É uma candidatura irresponsável. Não ajuda nada a situação portuguesa e prejudica a AMI", escreveu o cronista político Vasco Pulido Valente, num cáustico texto no PÚBLICO, logo no dia seguinte ao anúncio da candidatura. "Deve regressar à AMI e preocupar-se com as coisas que sabe fazer", continuava Pulido Valente, para quem uma pessoa sem experiência e currículo político não tem condições para entrar nesta corrida.
Apesar de acreditar que um candidato a Belém não necessita de ter um passado político no sentido convencional da expressão, o politólogo Manuel Meirinho Martins nota que a carreira política acaba por ser o factor mais valorizado pelos eleitores: "A candidatura de Nobre é a única que se diferencia do carreirismo político, mas acho que este papel é curto." Num país como Portugal, "sem uma sociedade civil forte e sem grande tradição de intervenção social, isto vale pouco", acrescenta. "E há alguma ingenuidade nas suas propostas, são frágeis, algumas até são irrealizáveis. Confunde funções executivas com as do Presidente da República." Um exemplo: a redução do número de deputados de 230 para 100.
Mas o que o terá feito dar este passo? "Pode ter sido induzido por incentivos, apoios que depois não se concretizaram formalmente", alvitra. Nobre sempre negou, com ênfase, que Mário Soares o estimulou a dar este passo. "Isso é insultuoso. Eu penso pela minha cabeça", declara, agastado.

