Já há mais de uma hora que os carros de luxo cumpriam o seu pára-arranca frente à porta principal do Palácio da Ajuda, de forma organizada e sem incidentes de maior, quando começou a ecoar uma vozearia. Eram as palavras de ordem dos Homens da Luta, a dupla de humoristas Jel (Nuno) e Falâncio (Vasco Duarte), os únicos que apareceram na tomada de posse do Governo sem serem convidados. De resto, foi uma cerimónia em circuito fechado, sem anónimos na assistência, à semelhança do que aconteceu em 2005.
Os actores chegaram quase ao mesmo tempo que Sócrates e pouco antes de Cavaco Silva. A alguns metros do edifício, os antigos protagonistas de um programa da SIC Radical e que hoje só estão na Internet atraíram tantos jornalistas como alguns ex-ministros. Com um megafone, uma viola e um cartaz com oslogan "A luta continua", traziam muita ironia. "Estamos contentes com este Governo. É o melhor que pode haver para as lutas", gritava Jel frente à barreira policial formada para impedir a sua passagem. De megafone colado ao rosto de um dos agentes, Jel perguntava: "Isto é aberto ou não? Mas nós votámos Sócrates!" E talvez para desanuviar a tensão, o humorista não esqueceu os agentes da autoridade, provocando alguns sorrisos contidos: "Aumentem os senhores polícias!"
Palavras de ordem como "Sócrates, amigo, a luta está contigo" ouvem-se nitidamente na elegante Sala dos Embaixadores, em plena cerimónia da tomada de posse, provocando também sóbrios sorrisos. É quando o Presidente da República está a terminar o seu discurso que o megafone deixa de se ouvir. Cá fora, já sem jornalistas por perto, Jel e Falâncio foram levados para a esquadra para serem identificados por estarem a "perturbar uma cerimónia de um órgão de soberania".
Desde cerca das 11h que começaram a chegar as "altas entidades do Estado, os membros do Governo cessante e familiares dos ministros empossandos". À entrada da sala circular, encimada por uma abóbada onde está pintado um fresco com céu azul e algumas nuvens densas, dois camareiros indicavam aos convidados o lugar onde se haviam de sentar. A primeira fila da ala direita é reservada aos ministros cessantes.
Vieram representantes das instituições civis, parceiros sociais, conselheiros de Estado como Pinto Balsemão e Leonor Beleza, e altas individualidades da Justiça. Não faltaram o presidente da Região Autónoma dos Açores, Carlos César, uma única líder de partido da oposição, Manuela Ferreira Leite, e um só ex-Presidente da República, Ramalho Eanes.
Já os convidados estão acomodados quando entra o cortejo da equipa ministerial. António Costa deu um demorado abraço a Gabriela Canavilhas, ex-presidente da Orquestra Metropolitana de Lisboa. A nova ministra da Cultura recebeu outro forte abraço de Carlos César, de cujo governo regional foi directora regional. Emocionada parecia estar também Maria de Lurdes Rodrigues. A todos os ex-colegas de governo, a ministra da Educação cessante colocou a mão no ombro e deu um beijo, mas foi com Mariano Gago que revelou maior amizade.
No compasso de espera até ao início da cerimónia, Ana Jorge e Isabel Alçada, sentadas lado a lado no friso feminino do Governo, conversavam alegremente e quase pareciam irmãs, tão semelhantes estavam na sua elegância: saia e toppreto por baixo de umblazer claro.
José Sócrates entra e todos se levantam. Começa a cerimónia, primeiro a tomada de posse do primeiro-ministro, depois a do restante elenco governativo. Por fim os discursos.
No final, a tradicional apresentação de cumprimentos deixa perceber cumplicidades e afastamentos. Maria de Lurdes Rodrigues abraça José Sócrates, mas este demora-se mais nos abraços e sonantes palmadas nas costas com Mário Lino e Severiano Teixeira, com Alberto Costa e António Costa. Manuela Ferreira Leite distribui secos apertos de mão a todos e só a Isabel Alçada cumprimenta com um beijinho. Depois sai, pelo seu pé e sozinha. Tal como tinha chegado
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