João Lobato não ficara satisfeito com a resposta de Jerónimo de Sousa no programa dos Gato Fedorento sobre o país onde o líder do PCP preferia viver – Suécia, Noruega ou Coreia do Norte. E foi-lhe perguntar ontem à tarde, quando Jerónimo descia, numa arruada, a avenida Dr. Lourenço Peixinho, no centro de Aveiro.
"Com a Coreia, culturalmente, não me identifico. Na Suécia é frio como um raio”, dizia-lhe o líder do PCP para dizer que o que prefere mesmo é Portugal, antes de lhe apertar a mão para continuar o seu caminho. “É uma resposta política, não se poderia esperar outra coisa. Mas também não podia deixar de lhe perguntar”, comentava depois, acrescentando ter gostado de ver o resto da entrevista.
Durante pouco mais de uma hora, Jerónimo e um grupo de apoiantes subiu e desceu a avenida, cumprimentou os comerciantes e quem passava, escapou a duas mulheres que gritavam numa esquina pela CDU fazendo pose para as câmaras, ouviu as queixas de um jovem sobre cursos de formação profissional e subsídio de desemprego e as de um fornecedor de frutas que está para receber facturas do Ministério da Defesa desde 2006. “Têm dinheiro para os aviões mas não para o que põem no prato para os militares comerem”, queixou-se.
Jerónimo não usou estes exemplos para arremessar contra a política do Governo no pequeno discurso que fez no final, já visivelmente cansado. Preferiu contar que apesar de a CDU não ter nenhum deputado por Aveiro, foram os eleitos da CDU por outros distritos que apresentaram na AR requerimentos sobre a região – mais até do que os eleitos do PS. Por isso, o líder da coligação PCP-PEV pediu um reconhecimento do trabalho feito: que o distrito lhe volte a dar o deputado que a então APU perdeu em 1987.
“Olhando para este distrito sentimo-nos injustiçados: depois de tanto esforço, tanto empenho, nas eleições nunca conseguimos chegar lá”, queixou-se o líder comunista.Do empenho da CDU no distrito, Jerónimo deu como exemplo o acompanhamento, desde há cinco anos, da complicada situação vivida pelos trabalhadores da empresa têxtil Califa, em São João da Madeira, que visitara no final do intervalo para almoço.
Ali a situação está complicada: a empresa com cerca de 200 trabalhadores – na sua maioria mulheres, mas há casos em que o casal está ali empregado – já pediu a insolvência, tem em atraso o subsídio de férias e um mês de salário. A laboração, no entanto, continua, e está marcada uma greve para o dia seguinte às eleições caso os salários (muitos deles de 425 euros) não sejam pagos até ao final da semana.
Classificando os atrasos dos salários como uma “brutalidade” e afirmando que a gerência tem recorrido à ameaça de despedimento, Jerónimo deitou culpas ao Governo pela situação. “O Governo chamou a si os créditos em desfavor dos trabalhadores e entregou a gestão ao Finibanco, a uma empresa de capital de risco”, contou, elogiando a “coragem das trabalhadoras que durante cinco anos nunca desistiram de lutar pelos seus direitos e pelo posto de trabalho”.


