Movimentos de protesto: é só indignação ou já é política?

22.01.2012 - 15:15 Por Alexandra Prado Coelho
É preciso pensar os movimentos de revolta que surgiram em vários pontos do mundo - perceber que formas de organização estão a surgir, para onde caminham, que discurso está a nascer, que eficácia pode ter.
Como ler as revoltas e as indignações do mundo actual? O Teatro Maria Matos e a associação Unipop (ligada à academia e ao activismo social) organizaram sexta-feira e ontem um seminário para o qual convidaram intelectuais e pensadores, e também activistas - do filósofo italiano Antonio Negri (autor de Império , com Michael Hardt), à filósofa francesa Judith Revel, passando por vários sociólogos, filósofos e analistas portugueses e espanhóis, para discutirem os manifestos, a política das palavras e os movimentos de revolta e indignação.
Um dos módulos do seminário chamava-se Para um Dicionário das Revoltas Actuais . O PÚBLICO pediu a alguns dos participantes que escolhessem palavras para criar esse dicionário. Eles escolheram-nas (algumas respostas são orais, outras chegaram por email ), mas, para que o discurso tenha sentido, tivemos que alterar a ordem das palavras (não é a alfabética) e baralhar o dicionário.
Mas, se calhar, é isso mesmo que, nas ruas e praças de várias cidades do mundo, muita gente (durante muito tempo "espoliada das palavras", como diz António Guerreiro) tenta fazer - baralhar o dicionário para encontrar uma nova linguagem. Por isso, este dicionário termina com a palavra "começo".
O debate coincide com a divulgação de um estudo que revela que só 56% dos portugueses acreditam que a democracia é o melhor sistema político. Na base do crescente cepticismo em relação à democracia está algo que também aparece nos protestos "indignados": a falta de confiança nos dirigentes políticos.
Manifesto
A definição é do filósofo italiano Antonio Negri. Breve, mas incisiva: "Um manifesto é um texto que organiza um projecto para o futuro. Um projecto de revelação, um dispositivo para a acção, uma acção projectual, decisão e acontecimento."
Corpo
É a palavra escolhida por Bruno Monteiro. Dar o corpo ao manifesto. É a partir desta ideia que se organiza a reflexão do investigador do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Não estamos aqui a falar das formas de auto-organização nas ruas. Partimos antes de uma estrutura organizada - os sindicatos - para tentarmos perceber como é que um manifesto ganha corpo. Ou, colocado de outra forma: como é que se forma um dirigente sindical? Estamos, portanto, a falar de liderança.
Esta é uma análise que não se pode limitar ao discurso ideológico. Num plenário, numa reunião de trabalhadores ou noutra situação semelhante, quem é que assume o papel de líder? "Há um trabalho de levantamento constante de competências pelas organizações sindicais" para identificar as pessoas com as características necessárias. E há depois um processo de encorajamento dessas pessoas, que pode passar por coisas tão discretas como uma palmadinha nas costas depois de uma intervenção considerada bem-sucedida num plenário.
Há todo um trabalho do corpo na construção da liderança. "A falta de naturalidade [por exemplo, a leitura de um texto já escrito] é altamente penalizada", enquanto são valorizadas "a frontalidade, o olhar nos olhos, o falar grosso, a calma quando se fala em público ou a adopção de um estilo retórico próprio".
A par disso, "é desenvolvido um trabalho simbólico de monopolização da representação dos trabalhadores" - por exemplo descredibilizando abaixo-assinados que não tenham partido do próprio sindicato. A distância do operariado em relação à política - a ideia do "eu, de política, não percebo nada" - acaba por "favorecer o surgimento de instituições permanentes", como os sindicatos, precisamente.

