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Anomalias nos telemóveis geram suspeições

Militares e PSP acreditam que são escutados ilegalmente

24.10.2007 - 08:45 Por Paula Torres de Carvalho, José Bento Amaro

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Dirigentes das associações profissionais de militares afirmam ter "fortes suspeitas" de estarem a ser alvo de escutas telefónicas, juntando as suas desconfianças às que foram recentemente manifestadas pelo procurador-geral da República, Pinto Monteiro. Estas suspeitas são partilhadas por alguns responsáveis sindicais da PSP, os quais afirmam que esta polícia possui, há vários anos, equipamento apropriado para escutar conversações telefónicas à distância.
Na PSP o cenário de desconfiança é idêntico ao dos militares, com os presidentes de dois sindicatos referem várias anomalias Na PSP o cenário de desconfiança é idêntico ao dos militares, com os presidentes de dois sindicatos referem várias anomalias (David Clifford/PÚBLICO (arquivo))

"Temos indícios muito fortes que nos permitem afirmar com segurança que os nossos telemóveis estão sob escuta" diz ao PÚBLICO o vice-presidente da Associação Nacional de Sargentos, sargento-mor, David Pereira. Também o coronel Tasso de Figueiredo, secretário-geral da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), afirma: "Nalguns momentos e pelas mesmas razões invocadas pelo senhor procurador-geral da República, tivemos a suspeita de que os nossos telefones móveis ou fixos estariam sob escuta."

David Pereira refere que essas suspeitas têm vindo a tornar-se mais fortes desde há dois anos, por ocasião do crescimento dos protestos dos militares relativamente à perda das suas regalias sociais. Como exemplo, menciona o dia 11 de Setembro do ano passado, quando foi deslocado de uma unidade para outra, após o período em que esteve detido por ter participado num chamado "passeio" de militares pela Baixa lisboeta, no qual estes pretenderam manifestar o seu desagrado pelas medidas do Governo na área da Defesa.

Nesse dia, em que dois outros dirigentes associativos, José Pereira e Lima Coelho, foram ouvidos no âmbito de processos disciplinares que lhes foram movidos por terem igualmente participado no referido "passeio", nenhum dos três conseguiu contactar entre si , através do telemóvel, conta David Pereira. "Ficámos todos incontactáveis", afirma. O sargento-mor acrescenta que, por vezes, se ouvem "estalidos" no início de cada chamada, e que o fax "há dias que funciona e outros não". Questionado sobre se desconfia de que essas escutas, a existirem, poderão ser realizadas pelos serviços de informação militares, David Pereira responde: "Quem as faz não sei, mas lá que estes episódios coincidem com os períodos mais quentes da nossa luta, coincidem".

Em jeito de brincadeira, há até militares que, antes de iniciarem uma conversa telefónica, perguntam: "Já cumprimentou os ouvidores?", numa alusão aos que transmitiam informação nos tempos da monarquia.

O coronel Tasso de Figueiredo considera que, "a confirmarem-se essas suspeitas", o problema é que "o fenómeno das escutas não autorizadas é de muito difícil controlo, passando a sua erradicação ou, pelo menos, diminuição, pela evolução das mentalidades ao nível dos diferentes poderes". Essa evolução só será possível, em seu entender, "quando o contraditório for reconhecido como questão essencial a um Estado que se afirma como democrático", salienta.

Escutas a sindicalistas
Na PSP, o cenário de desconfiança é idêntico ao descrito pelos militares. Os presidentes de dois dos principais sindicatos desta polícia referem que "há demasiadas coincidências e anomalias" a afectar os seus telefones pessoais, bem como os de outros sindicalistas. Essas anomalias, dizem, podem significar que os aparelhos estão vigiados.

"Acredito, por experiência própria, que a PSP escuta os seus próprios funcionários, sobretudo os sindicalistas, tal como acredito que agora [desde que o procurador-geral da República levantou a suspeita das escutas ilegais] essas escutas tenham deixado de ser feitas", disse Armando Ferreira, presidente do Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol).

Instado sobre o mesmo assunto, o presidente do Sindicato dos Profissionais da Polícia (SPP), António Ramos, começou por lembrar que "ainda tenho um processo pendente, tal como alguns jornalistas, por ter denunciado a existência, dentro da PSP, de uma espécie de polícia secreta, a qual foi desmantelada há cerca de dois anos, mas que, actualmente, estará a ser reactivada". Essa "polícia secreta" será o Departamento de Informações Policiais da PSP, sediado em Belas. Este serviço, dizem os sindicalistas, possui equipamento para efectuar escutas ou simplesmente escutar conversações e identificar o local de origem das chamadas, desde 1999.

Por fim, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), Paulo Rodrigues, sem ser totalmente explícito em relação à questão, confirma que "há indícios, nos telemóveis, que são estranhos", ao mesmo tempo que reconhece a existência, na PSP, de equipamento para efectuar escutas.

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