O ex-Presidente da República Mário Soares manifestou-se convicto de que os partidos políticos portugueses se vão “entender no futuro” como sucedeu nas recentes negociações em torno do Orçamento de Estado.
“Há dias disse em Braga que acreditava no bom senso dos partidos para uma negociação que garantisse a estabilidade política e governativa e fico satisfeito por isso ter sucedido”, afirmou, em declarações à Lusa, no final de uma conferência sobre diálogo inter-religioso que decorreu ontem no auditório municipal de Barcelos, integrada num ciclo de palestras promovido pelo município.
Para Mário Soares o governo, “se for capaz de dialogar com os partidos da oposição” e com as forças sociais, “tem condições para levar a legislatura até ao fim”. “A democracia faz-se com diálogo e o actual primeiro-ministro tem capacidade para dialogar e para governar”, declarou, elogiando o modo democrático como decorreram as negociações e a “postura construtiva” do PS, PSD e CDS.
Parco em palavras sobre a situação política do país, Soares recusou-se a falar sobre as alterações da Lei das Finanças Locais e sobre a convocação, pelo Presidente da República, do Conselho de Estado.
Na sua alocução na conferência, defendeu a necessidade de se garantir a liberdade religiosa e o entendimento e diálogo entre as diferentes religiões: “todos temos de aceitar que há pessoas que pensam de forma diferente da nossa e que não deve haver guerras nem conflitos por causa disso”. Soares disse que “todos fazemos parte de um Mundo variado mas que é um Mundo nosso”, e sublinhou que as diferentes religiões e civilizações “podem coexistir pacificamente”.
O ex-presidente da República afirmou que continua a “não gostar” do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, por ter entrado na guerra do Iraque ao lado de George W. Bush, sabendo que a teoria de que Saddam Hussein tinha armas nucleares “era uma patranha”.
Soares defendeu a necessidade de o chamado Ocidente tentar dialogar com o Irão, apesar de o país ser “uma teocracia com quem é difícil falar”.
O também antigo primeiro-ministro e mostrou-se “muito preocupado com o que se está a passar no Afeganistão”, país, onde - frisou - “as pessoas estão descontentes e nem sequer podem protestar”.
Mário Soares considerou que a recente conferência de Londres sobre o Afeganistão “pode trazer o princípio de uma abertura de negociações, que são úteis porque o conflito não tem solução militar”.


