Manuel Alegre poderá vir a ser o candidato apoiado pelo PS à Presidência da República, nas eleições agendadas para Janeiro de 2006. Na dança socialista dos nomes "presidenciáveis" - António Vitorino, Jaime Gama, Ferro Rodrigues ou Maria de Belém Roseira -, Alegre é, neste momento, o candidato que reúne o consenso de diversos sectores do partido para travar o combate contra a eventual candidatura de Cavaco Silva.
O histórico militante do PS nunca manifestou publicamente a intenção de concorrer a Belém, mas alguns dirigentes ouvidos pelo PÚBLICO equacionam esta hipótese como a mais favorável para o PS, argumentando que Alegre é quem pode vir a apresentar a mais produtiva capacidade de polarizar o eleitorado de esquerda e de centro-esquerda. Contactado pelo PÚBLICO, Manuel Alegre afirmou não querer pronunciar-se sobre este assunto.
Aparentemente Cavaco Silva assusta os socialistas, mas há quem recorde as eleições presidenciais de Janeiro de 1996, quando Jorge Sampaio derrotou o ex-primeiro-ministro do PSD cerca de três meses depois de António Guterres ter ganho as legislativas, em Outubro de 95.
A provável candidatura de Alegre é tanto mais ponderada pela direcção socialista quanto as divergências entre ele e Sócrates, agudizadas no ano passado durante a corrida à liderança socialista, foram ultrapassadas. O secretário-geral não quer, segundo alguns dirigentes, reabrir trincheiras internas e deu provas dessa tomada de posição ao escolher Alberto Martins para líder da bancada parlamentar socialista e Manuel Maria Carrilho para candidato à Câmara de Lisboa. Ambos foram, recorde-se, acérrimos apoiantes da candidatura de Manuel Alegre a líder do PS.
Fazendo jus ao provérbio que lhe é constantemente associado - "Não há festa nem festança..." -, António Vitorino é também apontado por alguns sectores do PS como o candidato que poderá derrotar Cavaco Silva nas urnas. Vitorino insiste que não aprecia o sebastianismo, mas ainda ninguém lhe ouviu uma palavra de recusa em relação à possibilidade de concorrer a Belém. O PÚBLICO tentou contactar o deputado socialista, mas até à hora de fecho desta edição não obteve resposta.
Se alguns dirigentes do PS sublinham que a porta da candidatura presidencial está aberta para Vitorino - o que, porventura, poderá originar um novo tabu -, outros recusam esta possibilidade, relembrando que o ex-comissário europeu não se mostrou disponível quando o partido precisou dele (leia-se quando Ferro Rodrigues se demitiu da liderança do PS e ele era o sucessor desejado pela maior parte dos socialistas). Na altura, explicou que não se candidatava a secretário-geral do PS porque não se sentia "motivado" para tais funções.
No processo de formação do Governo, houve quem entendesse que Vitorino estava a fomentar uma nova incógnita. Nomeadamente sobre a hipótese de vir ou não a integrar o elenco governamental. A verdade é que a incógnita alastrou a todo o Executivo, já que Sócrates conseguiu manter sob um manto de confidencialidade os nomes escolhidos para o Governo socialista.
Vitorino decidiu não exercer qualquer cargo governamental, remetendo-se à sua condição de deputado eleito por Setúbal e retornando à advocacia, mas esta opção acabou por causar alguma irritação entre os socialistas. Mário Soares foi um deles. Há cerca de três semanas, quando questionado sobre uma hipotética candidatura presidencial de Vitorino, o ex-Presidente da República respondeu: "Vitorino? Não! Depois disto?!" E prosseguiu: "Isso é um fait-divers. Insisti muito com ele [para integrar o Governo], como se sabe. Não quer, não quer. Preferiu a sua vida profissional. Se quisesse fazer política esta era a altura."
Alguns círculos socialistas avaliam, contudo, a possibilidade de Cavaco Silva não se candidatar a Belém. E neste contexto consideram que António Vitorino pode vir a ganhar um súbito interesse pelas eleições presidenciais, avançando com a sua candidatura.


