Luís Filipe Menezes: "Tenho capacidade para penetrar em sectores que tradicionalmente não votam PSD" 
28.02.2005 - 09:46 Por Ana Sá Lopes, PÚBLICO, Paulo Magalhães (Rádio Renascença)
O presidente da Câmara de Gaia não acha que Santana Lopes seja "um populista". Identifica-se com o seu "sentido de risco", "alegria" e "coragem", mas afirma ter "uma lógica mais organizada", "programar com profissionalismo as propostas" e ponderar melhor a escolha dos colaboradores.
PÚBLICO - Vai ser candidato à Câmara de Gaia. Como é que o líder de um dos maiores partidos pode estar ausente do Parlamento dedicado à gestão autárquica?
Luís Filipe Menezes - O facto de ser candidato a uma câmara é compaginável com uma entrada no Parlamento lá para diante, a meio do mandato autárquico.
Abandonaria o mandato a meio?
É uma questão que terei que equacionar em função da realidade que decorra do Congresso.
Acha que a sul do Douro as pessoas já se esqueceram da sua célebre tirada dos "sulistas, elitistas e liberais"?
Quem não vai à luta é que não tem falhas. Eu não pertenço ao grupo dos políticos que nunca se enganam e raramente têm dúvidas. Mas voltando à questão autárquica: penso que é muito importante que os políticos tenham legitimidade eleitoral directa do voto das pessoas. Há pessoas que fazem carreira numa lógica estritamente aparelhística, passo a passo, calculadamente, negociando, sem nunca ir a jogo. Acho muito importante que aqueles que querem ser líderes do maior partido de oposição vão a jogo.
Não está a falar do seu adversário Marques Mendes, que foi a jogo?
Aonde?
Em Aveiro.
Oh, meu Deus! Eu também fui a jogo em Braga. Com uma diferença: o PS em Braga ganhou um deputado, em Aveiro ganhou três. É totalmente diferente ir a jogo com o nosso próprio rosto para um resultado unipessoal.
Porque é que acha que pode ser melhor líder do PSD que Marques Mendes?
Eu apresentei ideias concretas e fracturantes para as eleições presidenciais, para as autárquicas, para a reforma do sistema político. O dr. Marques Mendes, que é uma pessoa que muito estimo e um quadro que eu como líder do partido nunca dispensaria, apresentou ideias muito redondas, muito na lógica de não perder apoios...
Mas o que o separa de Marques Mendes? Acha que representa melhor as bases do partido?
Em primeiro lugar, as ideias. Penso que tenho provas dadas de que sou uma pessoa que dá garantias quando vai a jogo perante os eleitores. Gaia é um microcosmos interessante, três em cada 100 portugueses vivem ali. É um município sociologicamente deslocado à esquerda, eu tive lá 62 por cento dos votos, o meu partido tem 29. Isto significa que tenho capacidade de penetrar em sectores que tradicionalmente não votam no PSD. Eu sei como trazer a sociedade civil para o PSD, sei como ganhar eleições.
Assume a herança de Santana Lopes no todo? Em parte?
Em parte. Eu não sou dos que qualificam o dr. Santana Lopes como um populista. O dr. Santana Lopes tem a coragem, o sentido de risco, o sentido premonitório da realidade, uma postura de centro-esquerda que se identifica a matriz que interessa a um PSD de vitórias.
Postura de centro-esquerda em Santana Lopes?
Acho que sim, acho que sim.
Não considera que o partido virou à direita?
Acho que se o dr. Santana Lopes não tivesse essa postura de centro-esquerda nunca teria ganho em Lisboa as eleições, com a esquerda toda unida e a direita com o dr. Paulo Portas. Essa atitude de coragem, sentido de risco, fazer a política com alegria, distendido, eu acho que é uma atitude boa.
E questões em que não assume a herança?
Penso que tenho uma lógica bem mais organizada de fazer política, de pensar com mais tranquilidade sobre as pessoas que interessa que estejam ao meu lado, de programar com profissionalismo as propostas que devo defender. Se eu fosse ao dr. Santana Lopes, teria em Julho defendido as eleições antecipadas. Outra coisa que não teria feito: não teria erigido o Presidente da República como adversário principal.
Diz que nunca denegriu as lideranças do seu partido, mas há uma inimizade declarada entre si e o primeiro vice-presidente Rui Rio...
Inimizade? Nós somos um partido muito aberto, frentista, um partido que tem gente de centro-esquerda, mais conservadora, que têm personalidades diversas. Na sua família dá-se bem com toda a gente? Se tem uma família grande, não se dá com certeza. Dá-se melhor com umas pessoas, pior com outras.
O dr. Rui Rio deve renovar o mandato na Câmara do Porto?
Se o dr. Rui Rio estiver em condições de ser o melhor candidato para vencer a Câmara do Porto, eu terei que equacionar essa situação. Nunca serão questões de ordem pessoal que me inibirão de escolher as candidaturas mais fortes.
Consigo à frente do partido, o PSD voltaria a ter uma relação privilegiada com o mundo do futebol?
É uma questão que tem sido discutida de forma errada. O PSD tem que se relacionar de forma tranquila com todos os mundos, o da cultura, o do desporto, o dos empresários. O que é importante é que haja respeito recíproco, que não haja anátemas, que as pessoas tenham boas relações pessoais... Promiscuidade não significa negociatas. Tem que haver uma relação cordial, distendida, com respeito, evidentemente sem que existam negócios, acordos escuros e ilegítimos que possam favorecer quem quer que seja.
O que é que defende para a reforma do sistema político?
Uma diminuição significativa do número de deputados. Um sistema misto com círculos uninominais e um círculo nacional. Defendo que o presidente da Câmara deve ser eleito por sufrágio directo e universal mas numa lógica unipessoal e depois constituir livremente as suas equipas, não ficar prisioneiro de partidos políticos e poder substituir pessoas ao longo do percurso. Limitação dos mandatos autárquicos. Defendo um único mandato de sete anos para o Presidente da República.
Admitiu a revisão da lei do aborto. Em que termos?
O que eu disse foi que o PSD tem que ser um partido moderno e aberto. Não pode ser um partido de tabus, que não discute as coisas.
Qual é a sua opinião concreta?
Faz sentido que exista um novo referendo, na altura própria. Acho que é limitativo que o referendo seja feito com base numa única proposta. Seria muito interessante perguntar aos portugueses, na base de propostas alternativas, qual a que prefeririam. Seria muito interessante que se encontrasse uma fórmula constitucional e legal de haver alternativas diversas para os portugueses escolherem.
Defende a despenalização do aborto?
Não vincularia o partido a nenhuma posição minha. Daria liberdade aos militantes. Penso que a posição que o prof. Freitas do Amaral defendeu há cerca de um ano atrás era uma proposta equilibrada.
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