Luís Amado invoca a Ibéria para criticar Ferreira Leite 
16.09.2009 - 00:02 Por Margarida Gomes, Leonete Botelho
Ontem à noite, num comício em Leiria onde é cabeça de lista, o ministro dos Negócios Estrangeiros invocou Sá Carneiro, Cavaco Silva e Durão Barroso para lembrar a luta de décadas contra o preconceito anti-espanhol que existia no Estado Novo.
“Portugal só pode ser um país plenamente inserido na Europa quando a Espanha o for, a Ibéria for, a Península Ibérica for um espaço de integração económica e política”, afirmou Luís Amado. “A gestão dessa relação é difícil, mas ela é pedra angular da nossa relação estratégica com a Europa”, defendeu. Mais do que isso, “é a pedra angular da nossa inserção geopolítica do mundo do século XXI”. “Quem não compreender isto não pode ser primeiro-ministro de Portugal”, bradou.
Estava dada a resposta ao repto que Pacheco Pereira, cabeça de lista do PSD por Santarém, tinha feito horas antes, quando exigiu de José Sócrates uma “afirmação unívoca” de que defende “os interesses portugueses”. Mas Luís Amado foi mais longe e atacou o PSD com o seu próprio passado.
“Nós somos um país aberto ao mundo, inserido na Europa com o esforço do PS e das direcções do PSD”. “De Sá Carneiro a Cavaco Silva, de Cavaco Silva a Durão Barroso, todos se empenharam em cultivar uma boa relação com Espanha”, lembrou.
Por isso considera ainda mais “grave e sério” o que a líder do PSD disse há dois dias atrás, “deixando no ar esse preconceito nacionalista serôdio, ultrapassado que nós não queremos que regresse ao espírito e ao imaginário político português”.
Tal como na véspera, em Faro, Sócrates deixou o cabeça de lista fazer as despesas da disputa eleitoral, optando por um discurso sobre as políticas que concretizou e quer prosseguir, sem uma única referência aos adversários. Para ao fim de meia hora de intervenção poder dizer: “Vêem como é possível fazer um comício sem dizer mal de ninguém?”
Ele não disse, já não era preciso. Luís Amado tinha feito todas as críticas ao PSD de Manuela Ferreira Leite, acusando-a de descaracterizar um partido que antes era de “ambição, de modernização e de reforma, um partido que lutou contra o isolamento do país depois do 25 de Abril”. Hoje “está a cavar a sua própria sepultura como partido reformista”.
Do TGV, explicitamente, ainda se falava ao almoço. Perante uma plateia de empresários, em Torres Novas (Santarém), José Sócrates convocava os presidentes dos EUA, Espanha e França para justificar a sua forte aposta nos investimentos públicos, em particular o TGV. “É preciso fazer investimento e nenhum país desiste disso. Vejam Barack Obama nos EUA, com um programa de modernização das infraestruturas. Zapatero encontra-se com Sarkozy e decidem um programa conjunto para acelerar a ligação de alta velocidade entre os dois países”, exemplificou.
E se alguém tinha dúvidas de que Sócrates falava do TGV, já que nunca o referiu, a prova foi dada: “Todos os empresários que aqui estão sabem que hoje é decisivo uma empresa estar ligada aos mercados do centro da Europa e isso, num país periférico como Portugal, exigem uma boa rede de transportes”.
Num longo discurso aos principais empresários do distrito, o ainda primeiro-ministro quis expor a sua agenda económica, mas foi traído pelo entusiasmo com as questões da educação. Demorou-se no tema e deixou para segundo plano aquilo que mais interessaria a quem o ouvia. A modernização das infraestruturas apareceu em quarto lugar, atrás ainda da internacionalização das empresas e da aposta nas energias renováveis.
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