Luís Amado defende "recentramento" no Atlântico e sublinha papel de Portugal pelas relações com África e Brasil

26.03.2009 - 11:39 Por Lusa
O ministro dos Negócios Estrangeiros defendeu hoje que na definição da sua nova estratégia a NATO deve "recentrar-se" no Atlântico e sublinhou o papel que Portugal pode ter pelas "relações privilegiadas" que tem com África e Brasil.
Na abertura de uma conferência no Instituto de Defesa Nacional sobre os 60 anos da Aliança Atlântica, Luís Amado referiu que, com o "deslocamento" do eixo geopolítico e económico para a Ásia e para o Pacifico, a construção do novo conceito estratégico da Aliança -- que se iniciará na próxima semana na cimeira de Estrasburgo e Kehl - deve "dar atenção ao Mediterrâneo e às relações no Atlântico Sul".
Amado disse ainda que o contacto que tem tido com os países asiáticos "ainda agudiza mais a percepção" desse "rápido deslocamento do eixo de gravidade da economia mundial para a Ásia e para o Pacífico".
"O ciclo pós-soviético está encerrado, o deslocamento do eixo geopolítico para o Pacífico impõe a consolidação do eixo Atlântico a norte e a sul", defendeu o responsável pela pasta dos Negócios Estrangeiros.
A NATO tem de se "recentrar de novo no espaço geográfico do Atlântico" visto que é uma "aliança de base geográfica que tem por referência o Atlântico e é aí que deve centrar-se de forma a manter a sua própria razão de ser", acrescentou.
Nessa lógica, o chefe da diplomacia portuguesa salientou o papel que Portugal pode vir a ter pelas "relações privilegiadas que tem no continente africano, no Mediterrâneo e em particular com o Brasil, no desenvolvimento de um sistema de segurança" neste espaço.
Perante uma sala completamente cheia, com oficiais, diplomatas nacionais, estrangeiros e responsáveis políticos, Amado referiu ainda que a concepção da Aliança como "polícia do mundo", como depois da Guerra Fria, ou "depois do 11 de Setembro como uma espécie de braço armado do Ocidente, é absolutamente desajustada no novo ambiente geopolítico existente e que esta crise vai acentuar".
"Não vejo condições nas actuais circunstâncias para a NATO ser o polícia do mundo, um noção que foi perspectivada por muitos líderes europeus (...) a ideia de defendermos os nossos valores é diferente de lutar por impor esses valores", declarou.
"Há aqui um erro gravíssimo e uma fronteira que temos de gerir", alertou, dizendo que é essencial "contrariar lógicas maniqueístas" que isolem o Ocidente, numa perspectiva excessivamente centrada nele mesmo.
Ao longo da sua intervenção, Luís Amado falou ainda das consequências da crise e disse que a NATO deve "ter a noção que o processo de reequilíbrio macroeconómico -- durante e após a crise - vai ter de ser gerido com muito talento, persistência e cautela para que não resvale para situações difíceis de controlar".
"Há um processo de reconfiguração geopolítica mundial mas temos todos a noção que a crise veio acentuar desequilíbrios macroeconómicos que estavam patentes e que são hoje mais evidentes - a multipolaridade, um sistema mais complexo e a natureza muito diversa dos múltiplos actores, estatais, não estatais, regionais, supranacionais, novas ameaças e uma perigosa proliferação nuclear", acrescentou o governante.

