José Sócrates proíbe represálias sobre Manuel Alegre

24.01.2006 - 09:12 Por São José Almeida, e Maria José Oliveira (PÚBLICO)
O primeiro-ministro e secretário-geral do PS, José Sócrates, deu já indicações claras de que não quer que haja qualquer tipo de represália, de ressentimentos ou de azedume em relação a Manuel Alegre.
A decisão tomada por José Sócrates foi já transmitida internamente às estruturas do partido e o líder socialista quer agora que neste período pós-presidenciais o PS normalize a sua situação interna por forma a ultrapassar as divisões provocadas pelo facto de terem existido duas candidaturas da área socialista: o candidato oficial do partido, Mário Soares, e o candidato à revelia da direcção do partido, Manuel Alegre.
A intenção de José Sócrates é claramente a de apaziguar a situação no interior do PS e instaurar um clima de tranquilidade interna. O objectivo é assumir a tese de que o que se passou se diluiu e que a vida interna dos socialistas volta agora à normalidade e ao convívio interno entre a direcção, cujo candidato, Mário Soares, ficou em terceiro lugar com 14,3 por cento dos votos, os socialistas que apoiaram Alegre e o próprio candidato independente, que ficou em segundo lugar com 20,7 por cento dos votos. O PÚBLICO apurou que, anteontem à noite, alguns dirigentes socialistas colocaram ao líder a possibilidade de abrir uma guerra contra Alegre, nomeadamente retirando-lhe o cargo de vice-presidente da Assembleia da República. Contudo, Sócrates rejeitou essa hipótese, argumentando que essa ideia pode aprofundar a cisão interna e traduzir-se em expressões de vitimização.
Sócrates quer a unidade interna e é essa a razão pela qual na noite eleitoral tinha já preparado um plano B, ou seja, no domingo à noite, o primeiro-ministro tinha dois discursos preparados: um, o que foi feito, reagindo à eleição de Cavaco Silva como Presidente da República, e um segundo discurso que consistia num apoio incondicional do PS à eleição de Manuel Alegre, caso houvesse segunda volta.
Este apoio a Alegre, se viesse a ocorrer uma segunda volta, foi mesmo aprovado por unanimidade na reunião do secretariado do PS que se realizou no domingo à tarde no Largo do Rato. Nesse encontro, José Sócrates analisou os vários cenários possíveis e deixou claro que, se houvesse segunda volta e o candidato de esquerda a passar fosse Manuel Alegre, o PS daria o seu apoio incondicional para a eleição do vice-presidente da Assembleia da República. Todavia, alguns socialistas não terão escondido que seria uma tragédia para o PS a eventualidade de vir a acontecer uma segunda volta entre Alegre e Cavaco Silva.
De acordo com as informações recolhidas pelo PÚBLICO, houve um momento em que a direcção socialista e o secretário-geral, José Sócrates, acreditaram que o apoio a Alegre teria de ser anunciado, uma vez que, à medida que os resultados iam sendo conhecidos, a segunda volta esteve iminente. Nessa altura, os dirigentes socialistas e Sócrates deslocaram-se para o Hotel Altis para assistirem à declaração de Mário Soares. E, perante as informações de que Cavaco descia nas percentagens, criou-se alguma expectativa. Mas ao fim de algum tempo de espera, no Hotel Altis, junto ao estado-maior da candidatura de Soares, rapidamente perceberam que tudo ficaria acabado naquela noite. Por isso, o primeiro-ministro ouviu Soares assumir a derrota e voltou ao Largo do Rato para fazer a sua intervenção enquanto líder do PS.

