José Sócrates diz que denúncias de Marinho Pinto não visam actual Governo 
26.01.2008 - 16:18 Por Lusa, PÚBLICO
O primeiro-ministro acredita que as denúncias de corrupção feitas ontem pelo bastonário da Ordem dos Advogados não se referiam a nenhum membro do actual Governo. Esta tarde, António Marinho Pinto reforçou as acusações, referindo-se a suspeitas que envolvem antigos ministros.
"Tenho a certeza que ele não se referia a nenhum membro, nem a nenhum ministro deste Governo", declarou José Sócrates, esta manhã em Monsaraz, à margem de uma deslocação a Monsaraz.
Perante a insistência dos jornalistas, o primeiro-ministro escusou-se a tecer mais comentário sobre o assunto, declarando que o bastonário "é que tem que se explicar". "Eu nada sei sobre o que ele pretende dizer e, portanto, essa explicação é devida ao país e isso é com o senhor bastonário", disse.
Marinho Pinto desencadeou a polémica quando ontem, numa entrevista à Antena 1, disse existir em Portugal “uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade”. “Andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos de lhes tocar. Alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado Português”, declarou o recém-eleito bastonário, prometendo avançar em breve com casos concretos.
Tendo em conta a “gravidade” e “repercussão social” das afirmações de Marinho Pinto, o procurador-geral da República anunciou ao final do dia a abertura de um inquérito ao caso, que será conduzido pela magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).
Marinho Pinto reforça denúncias
Já esta manhã, Marinho Pinto disse à Lusa não ter ficado "surpreendido" com a abertura do inquérito, considerando “habitual” este tipo de iniciativas e pouco depois, em entrevista ao Jornal da Tarde da SIC, dizia tratar-se “mais um acto para engrossar o caudal de dramaticidade” às declarações que proferiu.
Durante a entrevista, Marinho Pinto foi mais longe nas denúncias e, sem revelar nomes, deu exemplos de casos vê como demonstrativos da existência de “intocáveis da política”. “Um ministro de um governo recente atribui a concessão de um importante serviço público a uma empresa privada e depois saiu do Governo assumiu a presidência dessa empresa”, denunciou.
O bastonário revelou ainda que “há tempos”, em Coimbra, “vendeu-se um edifício público de manhã por 14 milhões de contos a uma empresa privada e às três tarde fez-se a escritura desse mesmo edifício por 19,5 milhões”.
Marinho Pinto denunciou ainda o caso de um “promotor imobiliário que pretendia fazer uma construção numa Reserva Ecológica Nacional” e, após anos de espera, “dois ministros consideraram que o projecto tinha interesse público". "Nesse mesmo dia entraram nos cofres do partido um milhão de euros", acrescentou o responsável numa referência clara ao caso Portucale, relativo à autorização dada pelo anterior Governo para o abate de sobreiros numa herdade de Benavente.
Os então ministros do Ambiente, Nobre Guedes, Turismo, Telmo Correia, e Agricultura, Costa Neves, foram investigados no âmbito deste caso, tendo o último chegado mesmo a ser constituído arguido, mas não viria a ser acusado.
Ontem, o CDS-PP anunciou que iria requerer a audição do bastonário na comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias para que Marinho Pinto concretize as acusações proferidas. Este já aceitou o repto, sugerindo mesmo a criação de uma comissão de inquérito, por considerar que as situações que denunciou "são graves e justificam" a iniciativa.
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