A decisão do ex-chefe das secretas foi tomada na quinta-feira. Silva Carvalho renuncia a todos os cargos que exerce na empresa e, em comunicado, diz não querer continuar a ser “arma de arremesso para ataques de grupos empresariais”.
Num comunicado a que o PÚBLICO teve acesso, assinado por Jorge Silva Carvalho, ex-chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) e actual administrador da Ongoing, anuncia que decidiu renunciar aos cargos e funções que exerce na empresa porque não quer “continuar a servir de arma de arremesso para ataques de grupos económicos”.
Silva Carvalho não refere explicitamente a Impresa, com a qual a Ongoing mantém um litígio judicial, mas na nota pode ler-se que “o essencial” dos “ataques” de que tem sido alvo tem origem numa “empresa que mantém uma disputa societária com o grupo” onde desempenha funções desde finais de 2010. Esta situação, acrescenta, “retira a essas acusações o carácter de imparcialidade que se exige à boa actividade jornalística”.
O antigo responsável pelo SIED explica que a “campanha injuriosa, manipuladora e cheia de falsidades” que tem por alvos ele próprio e a Ongoing, “limitam” a sua “capacidade pública de intervenção” e “penalizam” a sua família e o grupo económico onde trabalha.
Num dos pontos do comunicado, Silva Carvalho nota ainda que esta “campanha tem por base o reiterado acesso ilícito” ao seu computador pessoal e “a despudorada violação dos mais elementares direitos pessoais” – algo que, frisa, tem vindo a acontecer “sob o olhar passivo das autoridades”.
Reiterando que sempre “respeitou o segredo de Estado e o dever de sigilo”, Silva Carvalho escreve que, após a saída da Ongoing, vai concentrar-se “em absoluto no esclarecimento de todas as acusações” que lhe foram dirigidas.
Entretanto, o Conselho de Administração da Ongoing enviou para as redacções um outro comunicado no qual diz ter aceitado o pedido de renúncia de Silva Carvalho. “O Grupo Ongoing entende e aceita as razões que levaram o Dr. Jorge Silva Carvalho a solicitar a sua renúncia”, pode ler-se, acrescentando-se que a empresa “acredita na justiça e espera que a verdade seja totalmente reposta no mais breve prazo possível”.
A administração salienta ainda que o trabalho de Silva Carvalho no grupo foi “visível e demonstrativo da sua enorme mais-valia como gestor”.
Silva Carvalho estava desde Dezembro de 2010 na Ongoing, a empresa para a qual foi trabalhar depois de ter abandonado os serviços de informação, em Novembro do mesmo ano.
Silva Carvalho, licenciado em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito de Lisboa, assumiu diversos cargos na empresa de Nuno Vasconcellos e Rafael Mora: entre outras funções, estava na administração da Ongoing Services, foi CEO da Ongoing Shared Servisses (cujo acrónimo, OSS, é igual ao da agência de “intelligence” precursora da CIA), e era membro da Ongoing Strategy Investiments.
Desde o Verão do ano passado que Silva Carvalho tem estado no centro de diversas polémicas: segundo notícias publicadas no semanário “Expresso”, terá transmitido informações classificadas para a Ongoing antes e depois de sair do SIED; e terá ordenado o acesso ilícito aos registos telefónicos do jornalista Nuno Simas, que, em 2010, escreveu, no PÚBLICO, sobre os serviços secretos.
As notícias originaram a abertura de diversos inquéritos, internos e não só. Silva Carvalho apresentou no Ministério Público (MP) uma queixa-crime por violação de correspondência privada e pouco tempos depois, na sequência de várias notícias sobre alegadas irregularidades cometidas pelo ex-chefe do SIED, a Procuradoria-Geral da República decidiu investigar Silva Carvalho.
As averiguações entregues ao Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) estão ainda em curso, mas já resultaram em buscas efectuadas pela Polícia Judiciária no gabinete de Silva Carvalho na Ongoing e no seu domicílio. Nesta ocasião, foram apreendidos o computador do ex-director do SIED e o seu telemóvel.


