Era uma espécie de regresso ao passado, um passeio com e entre velhos amigos e companheiros de trabalho e de lutas sindicais. Jerónimo de Sousa esteve ontem de manhã em Vialonga (concelho de Vila Franca de Xira), bem perto da sua terra, Pirescoxe (Loures), e bastaram-lhe duas ruas - desceu a dos bombeiros, percorreu alguns metros na principal - e 40 minutos para distribuir abraços e vários cumprimentos, "Estás bom, pá? Há quanto tempo!", sempre com efusivas palmadas nas costas de pessoas que conhece há algumas décadas.
O seu sorriso pareceu ontem bem mais genuíno. No final do passeio, disse-se emocionado pelo "reencontro afectivo muito forte" com a terra que é "um ponto de referência" na sua juventude. "Já mesmo muito antes do 25 de Abril assisti aqui à minha primeira iniciativa política, o meu primeiro comício, ainda no tempo do fascismo, ali na Casa do Povo", recordou. Lembra-se que a casa estava cheia, porque "o povo de Vialonga cedo lutou e afirmou os seus sentimentos democráticos".
Confessou ter a "consciência de não precisar de muitas palavras" por estar "em casa" - a freguesia é comunista há 35 anos. "Que bom é ver aqui tantos rostos de gente que trabalhou comigo, que lutou comigo, que foi capaz de afirmar o 25 de Abril", realçou quando falou aos apoiantes. Como o próprio presidente da junta de freguesia, Manuel Valente, com quem foi dirigente sindical.
Ao contrário do que Jerónimo afirmou na passada semana - que a CDU não vai só a locais onde é "dinheiro em caixa" -, a verdade é que a caravana tem escolhido a dedo os concelhos e as freguesias. As escolhas de ontem - Vialonga para começar, Santa Iria da Azóia para fazer o comício da noite -, assim como as da margem Sul, as alentejanas ou até mesmo as vimaranenses Moreira de Cónegos e Gandarela da manhã de domingo são os melhores exemplos.
Entre os antigos companheiros de trabalho de Jerónimo na metalúrgica MEC, José Carrapito, já reformado, com um pequenito cão ao colo, lembra o "homem com H grande", o "activista que pertencia ao sindicato já antes do 25 de Abril e que fazia prever o político" de hoje. Pela mesma bitola alinha Manuel Lourenço, de 71 anos, vizinho em Pirescoxe e que trabalhou igualmente na MEC. A empresa "era assim uma espécie de laboratório do PCP", e Manuel "distribuía livros, alguns proibidos, entre os trabalhadores". "Jerónimo de Sousa foi um dos jovens que foi beber muito aos livros que ali partilhavam."
Durante a arruada, quando se gritava em coro repetidamente "CDU!", uma mulher de etnia cigana deu uns passos em direcção à massa de apoiantes, de dedo em riste, a gritar, "Não! Não! Ele quer cortar-nos o rendimento social!", enquanto outra refilava no passeio: "PS! PS! A gente quer é o Socas!" Poucos lhes ligaram e elas desistiram.
Ao almoço, Jerónimo de Sousa esteve na Associação Portuguesa de Deficientes, onde ouviu a crítica de não ter disponibilizado o seu programa num formato acessível aos cegos. Ali, onde o presidente é também candidato pelas listas da CDU em Lisboa, o líder comunista apelou ao voto para punir o Governo pelas medidas penalizadoras dos deficientes: alteração na taxação do IRS e o fim das vagas para alunos com necessidades especiais no ensino público. Entre outras propostas, lembrou que a coligação defende o reforço das prestações sociais para os deficientes e família.
Ao fim da tarde, o líder da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, juntou-se a Jerónimo de Sousa na Casa do Alentejo e ambos traçaram o quadro negro da actual situação do desemprego e do trabalho em Portugal, com duras críticas à governação de Sócrates, em especial devido às alterações do Código de Trabalho e às reformas da segurança social e da administração pública - as "manchas negras" desta legislatura, como as classificou o secretário-geral comunista.


